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Os adolescentes mais afetados pela pandemia terão depressão

 


É uma manhã ensolarada de outubro. O mundo parece bem-feito. Fora, ouve-se em alto-falantes a música reggae de um grupo de rapazes e garotas que pescam na baía. Dentro, em uma sala na penumbra decorada com espadas antigas e um divã que reproduz o de Sigmund Freud, um homem com aspecto de sábio bondoso fala de sua infância sob o nazismo e do conceito que ajudou a popularizar: a resiliência. Conversamos sobre a pandemia de covid-19 e sobre como ela nos mudou.

Morreram no Holocausto, cientista e divulgador, autor prolífico, ocasional conselheiro oficioso do presidente Emmanuel Macro acaba de publicar Psicoecología. El entorno y las estaciones del alma (Psicoecologia O ambiente e as estações da alma). Na França, seu último livro, escrito com o jornalista José Lenzini, é Chérif Mécheri. Préfet courage sous le gouvernement de Vichy (Chérif Mécheri Prefeito coragem sob o Governo de Vichy), a história de um funcionário francês de alto escalão que se negou a colaborar com o ocupante nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Acabou, vamos pensar em outra coisa. Mas o vírus não se apagou. Está voltando e, se relaxarmos, pode haver outra onda. Acontece depois de todas as catástrofes, depois de todas as guerras. Há um momento de ajuste de contas e então passamos para o próximo. Com a negação nos sentimos melhor, mas nos impede de enfrentar o problema.

50 milhões de pessoas, mais do que a guerra de 1914 a 1918 [Primeira Guerra Mundial]. Tive pacientes que passaram a vida inteira com encefalite por causa da gripe espanhola. Sobreviveram, mas com o cérebro muito danificado. E não, não se falou dela. Só se falava da guerra de 1914 a 1918. E na França só se falava dos mortos franceses, muito numerosos: um milhão e meio de jovens morreram em condições terríveis, e a maioria eram adolescentes.

Eu era criança, havia uma alegria extraordinária. As pessoas estavam na rua, havia bailes por toda parte, festas, vontade de viver. E se pode compreender, é legítimo. Mas se não nos protegermos, em dois ou três anos haverá um novo vírus, mais confinamentos, mais mortos.

As pessoas não acreditavam em mim e acabei me calando. Apenas 40 anos depois, quando meu nome apareceu no processo de Maurice Papon [o prefeito de polícia francês que organizou a deportação dos judeus de Bordeaux], os jornalistas começaram a me perguntar sobre minha infância e agora não paro de falar nisso.

Europa e foi na casa deles onde aconteceu um crime imenso contra os judeus, contra os poloneses, contra os russos, contra quase toda a Europa. Mais tarde, quando já trabalhava como médico e a assistente social dizia às crianças: “Olha de onde você veio, nunca poderá seguir em frente, nunca poderá estudar, não tem família”..., me lembrava do que me diziam quando eu era criança. Por isso disse a mim mesmo que trabalharia para ajudar aquelas crianças a seguir em frente.

O cérebro se torna disfuncional porque não há ambiente, não há alteridade. Isso se fotografa, é muito fácil ver. Mas quando se reorganiza o ambiente, e desde que não tenhamos deixado a criança sozinha por muito tempo, vemos que os lobos pré-frontais e o circuito da memória se desenvolvem novamente e as duas tonsilas desligam. Ou seja, quando agimos sobre o ambiente, modificamos a escultura cerebral.

O primeiro é o ambiente imediato do bebê: o líquido amniótico, a química. O segundo é o afetivo: a mãe, o pai, a família, a vizinhança, a escola. E o terceiro é o ambiente verbal: os relatos, os mitos. E esse ambiente também participa da escultura do cérebro.



FONTE: BRASIL ELPAIS

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