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A revolução que faz com que quatro milhões de trabalhadores larguem

 


Saber o que não deu certo e quais foram os motivos que frustraram as expectativas do funcionário. A julgar pela sangria de americanos que deixam o mercado de trabalho desde que começou a recuperação pós-pandemia, as conclusões desses interrogatórios são mais reveladoras hoje do que de costume. É uma forma de entender por que desde abril, quando foi registrado o primeiro pico de saídas, cerca de quatro milhões de pessoas abandonam voluntariamente o emprego a cada mês, já que em muitos casos essas baixas não são acompanhadas, pelo menos não imediatamente, pela busca de trabalho.

Explicar isso seriam as economias acumuladas graças à injeção, por parte do Governo federal, de estímulos contra a pandemia, mas não é o único. O fenômeno a mobilidade já existia, mas não com esse ritmo é uma meada bastante emaranhada, com fios conjunturais e um miolo estrutural. Os especialistas o batizaram de Grande Demissão ou Grande Renúncia, com iniciais maiúsculas, porque essa tendência está dinamitando a cultura do trabalho tradicional: o desempenho profissional como prioridade na vida; a realização pessoal projetada apenas no ofício ou na carreira. Daí que alguns prefiram ampliar o foco e definir o que está acontecendo como Grande Remodelação, uma reformulação radical da cultura do trabalho, ou até mesmo como Grande Esgotamento, porque muitas vezes se trata de trabalhadores experientes ou muito esgotados pelo sistema, com o acelerador da pandemia.

A empresa oferecia seguro de saúde, seguro de vida e um plano limitado de aposentadoria, mas como tenho mais de 65 anos e tenho direito ao Medicare, abri mão do seguro médico. O Medicare [cobertura pública para idosos] é melhor”, explica ela. Nos EUA, o seguro de saúde particular é pago pelas empresas, daí que, geralmente, contar com benefícios desse tipo significa receber um salário líquido menor e vice-versa: salário maior, proteção menor.

Meses passavam, notei como minhas responsabilidades aumentavam, até que um dia me vi tão sobrecarregada que explodi e gritei: ‘Quero mais dinheiro para fazer isto!’. Depois do arrebatamento, senti que meu comportamento tinha sido inaceitável e decidi que era hora de ir embora”, conta O’Neill. “Na verdade, a direção se dispôs a me manter na reserva, mas me chamaram só um dia nos últimos dois meses para cobrir uma ausência.” Outra característica do sistema são as pouquíssimas licenças médicas tiradas pelos empregados, para não sofrer cortes no salário.

Enfrentam uma crescente escassez de mão de obra, e comprometendo a recuperação plena em setores como comércio e transporte, hoje com déficit de funcionários: basta observar as filas intermináveis diante de caixas fechadas de lojas de departamentos nas horas de maior movimento. No final de julho, havia 11 milhões de vagas de emprego nos EUA. Em setembro, eram mais de 4,4 milhões, um total levemente superior ao de agosto (4,3 milhões), em uma população de 331 milhões de pessoas. É a porcentagem mais alta de abandono de emprego desde que esse dado começou a ser registrado, há duas décadas.

Quase um milhão dos ex-trabalhadores atuavam no setor de lazer e restaurantes, um dos que se recuperaram mais rápido. Outros 863.000 saíram de atividades relacionadas ao alojamento e 706.000 ofereciam serviços profissionais. Ao todo, no final de setembro havia 10,4 milhões de vagas de trabalho no país, um número levemente inferior ao de agosto, mas ainda extraordinariamente alto para os registros históricos. Ou seja, cerca de 75 trabalhadores desempregados para cada 100 vagas, a proporção mais baixa das últimas duas décadas.

Qual o tradicional desequilíbrio de forças entre o empregador e o empregado está se nivelando gradativamente a favor do segundo. O crescente empoderamento do trabalhador explicaria a mobilização sindical que percorre o país, outro fenômeno que eclodiu com a pandemia. O trabalhador se vê em posição de exigir, às vezes acima da média. “Recusamos alguns que pediam 25 dólares [140 reais] por hora. ‘Por menos dinheiro, fico em casa recebendo os cheques do Governo’, diziam-nos. Não podemos pagar 25 dólares porque ainda não recuperamos o volume de negócios de antes da pandemia”, assinalou Davide, dono de uma trattoria em Manhattan, na quinta-feira.

Política e Economia, deixou um emprego com o qual, a priori, qualquer pessoa de sua faixa etária sonharia, porque “não combinava comigo, eu não me sentia confortável”. Há duas semanas ele saiu da Bloomberg, onde geria uma conta empresarial. “Trabalhava com consultores fiscais e contábeis, ajudando-os nas declarações de impostos através de nossas plataformas, para que pudessem aumentar o valor de seus negócios administrando melhor seus gastos”, diz Atwill por telefone de Washington. Mas não estava satisfeito e decidiu empreender um novo rumo profissional. “Mesmo sabendo que vou ganhar 50% do que recebia na Bloomberg”, completa.



FONTE: BRASIL ELPAIS

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