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O perverso ecossistema que viabilizou a política de morte

 


Também os contornos de uma opção ideológica: colocar a economia à frente da responsabilidade do Estado de preservar vidas. A aparente desorganização do Governo federal à frente da gestão da crise sanitária teve como pano de fundo a estratégia de desincentivar a adoção de medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, para apostar na imunidade de rebanho ―termo originado no controle de infecção entre animais com vacinação. A crença era de que a disseminação livre do vírus faria com que mais pessoas fossem naturalmente imunizadas. Enquanto isso não acontecesse, fórmulas mágicas como a cloroquina, por meio do chamado tratamento preventivo, dariam esperança de cura à população. “Se a imunidade de rebanho era o fim a ser perseguido, a cloroquina era o método. Essas ações, somadas ao atraso das vacinas, teriam como resultado muito provável a propagação da covid-19″, destaca a CPI.

Quarta-feira mostra que a estratégia do Governo aconteceu à sombra da razão científica, capitaneada pelo presidente Jair Bolsonaro e seu gabinete paralelo de aconselhamento, formado por políticos, médicos e empresários, que prestavam orientações e participavam de decisões sobre a políticas públicas.

Reduzido os níveis de transmissão da covid-19 em cerca de 40%, o que significa que 120.000 vidas poderiam ter sido salvas até o final de março de 2021″, disse o senador Renan Calheiros (MDB-AL) durante a leitura do texto final da comissão. Para o relator, o Governo adotou uma “estratégia macabra” ao defender a imunidade de rebanho e não priorizar a compra de vacinas, o que tornou o país uma “necrópole aterradora” conduzida pela “catedral da morte”.

Máscaras, convocou, promoveu e participou de aglomerações e procurou desqualificar as vacinas contra a covid-19″. A ação de Bolsonaro estava “atrelada à ideia de que o contágio natural induziria à imunidade coletiva”, visando uma retomada rápida das atividades econômicas que acabaram sendo paralisadas no início da crise sanitária, em março do ano passado, por ação dos governadores.

Propagação da ideia de tratamento precoce. “Em tempos normais, seria apenas um exemplo de desprezível charlatanismo pseudocientífico. Contudo, em meio a uma pandemia global, colaborou para gerar uma monstruosa tragédia, na qual alguns milhares de brasileiros foram sacrificados”, afirma o texto.

Campanhas publicitárias. O relatório afirma que a Secretaria de Comunicação (Secom) elaborou um vídeo intitulado “O Brasil não pode parar”, em momento em que a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o próprio Ministério da Saúde recomendavam a adoção de medidas de distanciamento social. O vídeo teve sua distribuição proibida pelo ministro do STF, Luís Roberto Barroso. mas segundo o ex-secretário de comunicação Fábio Wajngarten, a peça foi divulgada acidentalmente, pois não estaria aprovada ainda.

CPI que acreditavam que o presidente era orientado por pessoas de fora do serviço oficial do Governo, tamanha a discrepância entre as orientações técnicas dadas pela pasta e as ações do Executivo. Os apoiadores do gabinete paralelo serviam para dar teorias alternativas às defendidas pelos cientistas, mais alinhadas com os valores do presidente. É o caso do deputado e médico Osmar Terra, um divulgador da tese da imunidade de rebanho dentro do Governo, fato confirmado pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e pelo ex-chanceler Ernesto Araújo. Ao ser ouvido pela CPI, Terra amenizou o tom de seu ativismo e afirmou que a imunidade de rebanho nunca foi uma estratégia por si só. “A imunidade de rebanho é uma constatação de como termina uma pandemia. É isso, está em todos os livros. Não é... Não sou eu que inventei esse termo; isso está em todos os livros”, disse.

Nise Yamaguchi, apontada como a principal defensora da cloroquina e da hidroxicloroquina. Sua influência foi tanta, que chegou ao ponto de o Governo tentar mudar a bula de orientação do medicamento, prevendo o tratamento precoce da covid-19. A medida só não foi adiante porque o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, recusou a ideia, como ele próprio confirmou em seu depoimento à CPI. Yamaguchi disse que se reuniu com Bolsonaro pessoalmente apenas uma vez, no início da pandemia, em abril 2020. Segundo ela, foi o presidente que introduziu o tema dos tratamentos precoces. “Ele queria saber o que tinha de dados científicos da hidroxicloroquina. E eu fiz essa reunião a seguir com o Conselho Federal de Medicina para caracterizar o que tinha de científico (...) O que eu disse para ele é que os médicos estavam divididos”, afirmou à época. A médica defendeu o tratamento precoce, que teria sido prejudicado por uma “conspiração política”.

Diversas vezes por Bolsonaro ele mesmo atribuiu à cloroquina sua cura da covid-19. “Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce, seguindo recomendação do nosso Conselho Federal de Medicina [CFM]. Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial. Respeitamos a relação médico-paciente na decisão da medicação a ser utilizada e no seu uso off-label”, afirmou o presidente, em trecho destacado pelo relatório.

Criada e alimentada pelo próprio presidente. “Produzir esperança a milhões de corações aflitos com o avanço e os impactos da doença no Brasil e no Mundo”. Esta foi a justificativa utilizada pelas Forças Armadas para explicar sua atuação frente ao Tribunal de Contas da União (TCU), conforme detalha o relatório da CPI. O TCU investiga possível superfaturamento na aquisição de insumos para produção de cloroquina. O texto da CPI aponta que os insumos adquiridos pelo Exército custavam, em 2019, 488 reais o quilo, porém, foram adquiridos por 1.304 reais o quilo em 2020. O Exército diz que produziu os medicamentos a pedido do Ministério da Saúde, mas a pasta afirma que nunca fez o pedido.

Cloroquina teve sua importância reduzida pelo relatório CPI. A estratégia dos parlamentares é focar em atores que utilizaram de forma direta a cloroquina e outros medicamentos de eficácia não comprovada, como a ivermectina e a azitromicina, na distribuição dos chamados kit covid para tratamento precoce. É o caso de Nise Yamaguchi e dos médicos do plano de saúde Prevent Sênior, acusados por fazer testes em cobaias humanas sem aprovação dos órgãos competentes para tentar legitimar as teorias do Governo.

Foram tantas as barbaridades, que cabe perguntar: que experimentos a empresa não fez em seus clientes?”, destacou o relatório. À CPI, advogada dos médicos que denunciaram o plano de saúde, Bruna Morato, relatou que houve uma confluência de interesses entre a operadora privada de planos de saúde e o Governo federal, por meio do chamado gabinete paralelo. “A economia não podia parar, e o que eles tinham que fazer era isto: conceder esperança para que as pessoas saíssem às ruas. E essa esperança tinha um nome: hidroxicloroquina”, disse a advogada.

Associação sinistra na cúpula do Governo brasileiro, que, sob o lema ‘O Brasil não pode parar’, resultou na morte de milhares de brasileiros,diz o texto. Porém tenta evitar erros do passado talvez tendo na memória a destruição das empresas de infraestrutura com a Lava Jato e afirma que “é preciso distinguir entre a empresa e os seus dirigentes,a fim de não prejudicar os milhares de brasileiros que dependem do serviço privado de saúde.

Governo Bolsonaro. O texto lembra que um parecer emitido pelo Conselho isentando médicos que receitassem cloroquina ou hidroxocloroquina durante o período de excepcionalidade da pandemia de infração ética, se tornou “um escudo para gestores públicos ou privados”. A operadora de planos privados Hapvida, por exemplo, que utilizou esse argumento para se eximir de responsabilidades a respeito da prescrição do chamado kit covid. A CPI classificou como “temerária, criminosa e antiética” a publicação do parecer e afirma que é necessário apurar a responsabilidade do presidente do CFM, Mauro Luiz de Britto Ribeiro.

Maio de 2020, que incluiu entre os serviços essenciais a serem mantidos durante a pandemia aqueles prestados por “salões de beleza, barbearias, academias de esporte de todas as modalidades”, desde que obedecidas as determinações do Ministério da Saúde. O decreto não foi assinado pelo ministro da Saúde, Nelson Teich e acabou sendo ignorado por Estados e municípios. O presidente vetou ainda vários dispositivos de uma lei que tratavam do uso de máscaras e da assepsia das mãos com álcool em gel em espaços públicos e privados, bem como a obrigação do Governo de veicular campanhas publicitárias de interesse público que informassem a necessidade do uso de máscaras de proteção individual.


FONTE: TECMUNDO

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