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Invisíveis, órfãos da covid-19 encaram a pandemia

 


Cerca de 38.000 pessoas na região metropolitana de Manaus, quando a covid-19 chegou ao Brasil. Mãe de uma adolescente de 15 anos e de uma menina de 9, ela estava no início de uma gestação de gêmeos naquele fevereiro de 2020. Enquanto a vida crescia na barriga de Mariza, com Gabriel e Sophia disputando espaço, a cadeia de transmissão do coronavírus seguia ocorrendo pelo país, sem ser interrompida.

Enfermeira, para passar os quatro últimos meses da gestação na capital, onde seria socorrida mais facilmente caso necessário. Mas a pandemia, que havia sinalizado ligeira melhora na época, voltou a ficar desenfreada como resultado das aglomerações no fim do ano. Em 12 de janeiro, quando seus bebês estavam com dois meses devida, a educadora apresentou sintomas uma semana depois de sua irmã, Mayra Pires Lima, de 38 anos, ter sido diagnosticada com o coronavírus. O Brasil via aterrorizado o colapso no sistema de saúde do Amazonas: faltavam vagas nas UTIs e oxigênio para suprimir a falta de ar que a covid-19 causava. Após três dias em uma poltrona e 10 em uma enfermaria, Mariza foi transferida para a UTI quando abriu vaga, em 22 de janeiro. Morreu em 10 de fevereiro, deixando quatro filhos, inúmeros alunos e uma família devastada.

Lugar que ainda aceitava pacientes”, contou. A falta de cuidado intensivo foi, para Mayra, o motivo de a irmã não ter recebido o atendimento necessário para superar a doença. “Não foi falta de oxigênio que matou minha irmã. Isso colaborou. Mas o que a matou foi a demora no acesso ao leito de UTI. Ela precisava imediatamente...

Responsável por mais quatro crianças de uma hora para outra. Conta com doações para ajudar a cobrir os gastos das 10 latas de leite por mês, que custam mais de 500 reais mensais, fora as cerca de 40 fraldas por semana, outros 200 reais por mês, segundo Mayra. Para gastar menos e ficar mais próxima à família, a responsabilidade sobre as crianças também a fez decidir mudar de endereço: vai sair de Manaus para Careiro Castanho, onde os bebês já estão, aguardando a mudança de Mayra prevista para a semana que vem. A guarda já foi oficializada, mas Mayra planeja entrar com processo para incluir o próprio nome na certidão das crianças, mantendo o dos pais biológicos “porque isso faz parte da história”.

Da pandemia devido à falta de dados sobre quantas crianças estão nesta condição no Brasil. Esses casos não chegam a impactar nos números do Sistema Nacional de Adoção (SNA) porque dificilmente as crianças saem das famílias de origem e vão para abrigos. A maioria é acolhida por familiares.

Apontam até uma queda no número de crianças e adolescentes no SNA durante a pandemia. Em 2020, eram 33.969 crianças e adolescentes acolhidos em instituições, 5.040 disponíveis para adoção. Em 2021 eram 29.312 crianças acolhidas, 4.216 disponíveis para adoção, até setembro deste ano.

Feito pelo Imperial College, do Reino Unido, e publicado na revista científica The Lancet em julho, deu pistas sobre a gravidade do problema. A metodologia permitiu criar uma calculadora dos órfãos da pandemia. Em outubro, os dados foram atualizados e divulgados em um seminário virtual.

Ainda algum avô ou avó responsável por sua criação, desde março de 2020. “Infelizmente, o aumento de casos e mortes resulta em aumento no número de órfãos. A pandemia invisível da orfandade no mundo terá um sério impacto a longo prazo nas crianças das próximas gerações”, afirmou Juliette Unwin, pesquisadora da Escola de Saúde do Imperial College e coautora da pesquisa, durante o evento.

O número sobe para 194.200 se forem considerados os avós que tinham a guarda da criança. Outro dado disponível, da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), aponta que 12.211 crianças de até seis anos de idade ficaram órfãs desde março de 2020 até 24 de setembro deste ano. São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro, Ceará e Paraná são os Estados que lideram a lista de pais e mães que morreram de covid-19 no período, segundo as informações disponibilizadas por cartórios.


FONTE: BRASIL ELPAIS

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