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Criolo não dá para desperdiçar amor

 

Cena derradeira do clipe de Cleane, música-homenagem lançada pelo rapper há duas semanas, em parceria com o duo de DJ’s Tropkillaz, retrata uma família que se equilibra na força do outro após ser dilacerada pela dor da morte. “Estamos vivendo nosso luto. Na quebrada é assim, lutamos contra essa violência há muito tempo. Estão sempre nos distanciando dos nossos sonhos e minando nossas vidas. Ainda que a dor seja enorme, precisamos seguir construindo algo....

Aos 39 anos, ajuda a explicar o Brasil contemporâneo.Somos apenas números na mão dessa gente. Eles esquecem que temos pai, mãe, filho, irmã. No meu caso, já não tenho mais”, diz Criolo. “É uma desumanização contínua e a glorificação da crueldade. A morte faz parte do processo natural, mas eles abreviam nossas vidas com os mecanismos cruéis que nos são oferecidos.

As imagens das covas sendo abertas aos montes, dos corpos sendo enterrados rapidamente e sem direito a velório e despedida formam um país que inaugurou a modalidade do ‘talão zona azul de jazigo pequeno’. Nada parece sensibilizar quem nos governa. “Está morrendo gente? Eu escrevo: ‘esse sangue pisado não é açaí’. Mataram inocente? Foda-se! Põe granola e caqui. Eles estão comendo a gente nesse assassinato em massa que extermina o povo preto, indígena e LGBTQI+ desse país”, salienta.

Avessas ao bailarino russo Mikhail Baryshnikov. A introdução da letra ‘A’ e a formação do prefixo ‘kova’ indicam que a peça encenada em terras brasileiras, com seus 600.000 mortos vítimas da pandemia, seja um espetáculo sombrio de acompanhar. “Aqui quem nos conduz é o bailarino da morte, que vai se banhar com ondas de sangue em uma praia de mortos.”

Filho, família de rico/ Que culpa o pobre que leva o castigo”. “Nós estamos vivendo em um país cujo poder de decisão de vida e morte está nas mãos de poucas pessoas”, afirma. “Esse bailarino da morte nos impõe uma morte cruel, covarde e desumana. Jeito sujo e sórdido de como se pensar a vida de todas as pessoas do nosso país.

Todo maloqueiro tem um saber empírico”, explica. Ao usar a palavra ‘Chambers’ (Câmara, em inglês), que aparece repetidas vezes no refrão da música, ele manda um recado ao Congresso Nacional. “Não estão nem aí se vai morrer todo mundo. É da minha família? Não? Então quero saber dos meus interesses. Esse é o pensamento”, analisa.

Revolta ocupa lugar de destaque no seu pódio de prioridades. O rapper mira sua artilharia do Brasil distópico para quem ainda não entendeu a complexidade do momento. “Se não é com você, que que tá acontecendo?/ Sentado no muro, conforto, isento”, diz um dos versos. Em outro, o músico anuncia: “cês não tão sabendo, povo tá morrendo”, como se a desigualdade social que vitimou mais negros e pobres ao longo da pandemia fosse uma novidade para uma parcela do país.

Pessoas perceberem a desigualdade que existe aqui. Só agora descobriram que não tem hospital na favela? Que não tem saneamento básico? Que nós morremos mais e das formas mais cruéis? Só agora?”, questiona. “Mas também tenho a sensação de que muita gente ainda não vai ter contato com a forma brutal que conduz nosso povo”, lamenta o rapper.


FONTE: BRASIL ELPAIS

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