surgiu do desespero em cabul

 

Poder é o mercado de segunda mão que surgiu junto à ponte Khishti, no bairro de Chaman-e Hozori, em Cabul. Há utensílios de cozinha, tábuas de passar, velhos televisores e sobretudo tapetes; muitos tapetes e almofadões que são equipamentos essenciais em qualquer lar afegão, onde o habitual é sentar-se no chão. O fato de muitas famílias porem seus pertences à venda desta forma ilustra a grave crise humanitária que o Afeganistão enfrenta.

Estou vendendo o tapete e as almofadas porque desde que o Governo anterior caiu não recebi meu salário, e em casa não temos o que comer”, diz, baixando o olhar. Sua família não está entre as milhares que acampam nos parques da capital depois de fugirem dos combates entre o Talibã e as forças de segurança no interior. Há um mês e meio Khalid, de 20 anos, estava no Exército. Seu soldo mais a aposentadoria do seu pai, ex-soldado, mantinham toda a família. Ele é o mais velho de nove irmãos. Viviam sem excessos, mas sem aperto.

Duas semanas depois, a família ficou sem renda, e o dinheiro começou a escassear. “Todo dia vendo alguma coisa, e com o que ganho compro comida”, conta. Hoje, espera conseguir 3.000 afganis (186 reais) pelo tapete que lhe custou o dobro. “Trabalharia do que fosse, mas não há trabalho”, acrescenta, resignado.

Bazar informal onde particulares e mascates oferecem seus produtos. Alguns simplesmente botam um pano no chão ou uma banqueta. Outros, mais profissionais, instalam vitrines improvisadas sobre cavaletes. Há os que classificam os produtos e os que os oferecem aos gritos.

55 anos, lamenta o dia em que voltou do Paquistão, há sete anos. Durante este tempo, a febre da construção civil lhe permitiu trabalhar e prosperar com sua família. “Estava contente, mas com o Talibã todas as obras pararam, perdi o emprego e a esperança”, relata.

Não confio nas promessas deles”, afirma. Agora, queria voltar para o Paquistão, mas se queixa de que as autoridades não permitem. “Fui até Torkham em 20 de agosto e os guardas paquistaneses nos rechaçaram com paus e insultos”, diz. Por isso, tenta vender alguns bens que traz em duas caixas, para ir levando.

Durante as duas últimas décadas, os bancos convenceram os afegãos a depositarem suas economias em vez de guardá-las debaixo do colchão. Mas agora ficou impossível resgatá-lo. Os novos governantes limitaram os saques a 20.000 afganis (1.240 reais) por semana.

Vender diretamente suas posses ou têm pressa em se desfazer delas e sair do país. Recorrem então a intermediários que estão fazendo a festa. “O normal era comprar o conteúdo de dois ou três lares por semana, mas agora nos oferecem dez vezes mais, o problema é ter espaço para armazenar”, declara Faiz Mohammad. Que se pague entre 200.000 e 400.000 afganis (12.400 a 24.800 reais) por todos os bens de uma família dá uma ideia da sua pobreza.


FONTE: TECMUNDO

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