Catadores e carvoeiros os trabalhos extremos

 

As montanhas de lixo não parecem ter fim. Um montículo atrás do outro, até se perderem no infinito. Os urubus pairam sobre sua cabeça, com esse grasnido asqueroso que ela já não suporta mais. E esse cheiro. “Odeio eles”, sussurra em shipibo, seu idioma natal. Praticamente não conhece outra paisagem desde que nasceu; lá, atrás do lixão, se abre a floresta interminável, a Amazônia.

Composta por outros seis membros, poucas vezes se aventuram na mata. Desde que a hora em que o sol nasce, se dedicam a reciclar lixo, plástico, lata, papel… A sucata é o que há de mais valioso. Mas, com a pandemia da covid-19, a situação inclusive piorou.

Pucallpa, uma cidade de 270.000 habitantes a cerca de 100 quilômetros em linha reta da fronteira com o Acre. Ao redor deles vivem aproximadamente uma centena de pessoas, todas indígenas da etnia shipibo. Uma aldeia que surge em meio ao lixo. Ramiro Reyes, pai da menina, aparece com um gancho de arame na mão. Na outra, uma tampa de privada que ergue como se fosse um troféu. Ao seu lado, outra das filhas segura a neta dele no colo. Logo começara a andar e poderá ajudar também.

Faz seis meses que a praga [o coronavírus] chegou ao povoado. Começou a se espalhar, não sabíamos o que fazer, diziam que era a nova cepa, a amazônica. Foram caindo membros de cada família, dezenas de mortos. Ninguém veio nos socorrer, foi horroroso”, descreve. “Ainda por cima, não limparam o único acesso que há do botadero [o depósito de lixo] ao povoado. A Prefeitura é que deveria fazer isso com as lagartas [máquinas que arrastam os detritos]. Ficamos presos. Deixaram a gente morrer lentamente”, acrescenta.

338 toneladas de resíduos por ano. Há mais de 15 anos o Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental (OEFA) recomendou seu fechamento, que os resíduos fossem tratados e enterrados, e que este espaço se transformasse em um aterro sanitário. Mas tudo continua igual, e os catadores exercem seu trabalho expondo-se a todo tipo de doenças, pois bebem a água que provém de canais subterrâneos contaminados e também sofrem as consequências da emissão de metano. Um estudo feito em 2017 pela Universidade Nacional de Ucayali confirmou que 70% da população que vive aqui sofre de doenças respiratórias, como asma, dispneia, gripes, tosse e intoxicações. Além disso, 30% enfrentam outras enfermidades, entre as quais se destacam a disenteria e a dengue. E então chegou a covid-19…

Quase 200.000 o número oficial de mortos pela pandemia, o que deixa o país com uma das maiores taxas de mortalidade do mundo. Estima-se, além disso, que o Governo só tenha registrado 36% dos óbitos devido à disparidade nas cifras oferecidas pelo Ministério da Saúde, que informava sobre 62.674 mortos em maio, e as do Sistema Nacional de Óbitos (Sinadef, na sigla em espanhol), que registrava 170.882, quase o triplo.

Pucallpa, as casas afundam no barro. A chuva intensa deixou um rastro de lama, transformando a periferia em um pântano. No meio da noite, várias fogueiras se acendem. São as carvoarias clandestinas, que trabalham a toque de caixa. Manuel Mellas, de 16 anos, trajando uma camisa do F.C. Barcelona, atiça as chamas. Várias brasas saltam, e ele as esquiva com destreza.

Carrega sacos que igualam seu peso do rio até a talana, “esse forno infernal que devora a madeira”, descreve. Depois, enterra o carvão em serragem, e a mistura é mexida lentamente enquanto a fumaça tóxica impregna tudo, também os seus pulmões. Sua avó, de cócoras, vai separando as partes úteis enquanto suporta temperaturas próximas dos 40 graus. Tem mais de 60 anos e as mãos endurecidas, cheias de calos.

Rastelo, mas em breve se incorporará ao processo. O padrasto, Rodien Ramos, aparece em cena e explica: “Somos uma família shipibo, subsistíamos com o que colhíamos e algumas vendas, mas a demanda diminuiu, tivemos que vir à cidade e trabalhar nas carvoarias. Praticamente moramos aqui, vamos alternando, cada um tem sua função. Vários adoeceram de covid-19, não sabíamos na verdade se era o vírus ou não, mas os vizinhos também estavam contagiados e se espalhou rápido. Da nossa família ninguém morreu, mas tivemos que continuar trabalhando, doentes”.

Menos 200 carvoarias clandestinas ao redor de Pucallpa. Ou pelo menos assim dizem, na falta de registros oficiais, as associações de moradores que desejam expulsar quem as habita. De vez em quando as autoridades agem para fechá-las, mas logo elas se reinstalam novamente na periferia.

Pobreza durante a pandemia e perderam seus trabalhos anteriores. Por respirarem diretamente as cinzas das carvoarias, sofrem numerosas doenças como obstrução pulmonar, pneumonite inflamação do tecido pulmonar,cansaço e déficit de oxigenação, conforme descrevem numerosos estudos sobre os efeitos nocivos da inalação da fumaça de carvão.Quando você se asfixia é difícil saber qual é a razão”, explica um resignado Rodien.A gente tem falta de ar.

A demanda chegou a crescer 300% em fevereiro, segundo informou na época a então ministra da Saúde, Pilar Mazzetti. Isto gerava preços elevados, longas filas, desespero e, naturalmente, um mercado clandestino. Durante os dias mais duros da pandemia, os pacientes necessitavam de pelo menos 173 toneladas de oxigênio por dia, e, segundo dados do Colégio Médico do Peru, o país não chegava a produzir nem 20% desse volume. 


FONTE: BRASIL ELPAIS

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