Um paciente sem fôlego atrás do outro

 


Ela tira a máscara de oxigênio e coloca uma chupeta na boca. Profissionais de saúde vem correndo e ajudam os paramédicos a levarem as duas para dentro. O motorista que as trouxe confirma: estão com suspeita de covid-19 e a menina não está bem, respira com dificuldade. No Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, o maior dessa região de periferia no extremo da zona Leste de São Paulo, chegava uma pessoa atrás da outra com sintomas de covid-19 na manhã desta terça-feira. Alguns não conseguiam respirar direito, vinham amparados em outra pessoa e sentavam no chão para recuperar o fôlego antes de ser atendidos.

Chegaram em busca de socorro em menos de meia hora. Lá dentro dá para ver que está lotado, e assim os novos pacientes ficam ali mesmo, na calçada. Uma pequena fila de umas cinco a dez pessoas chega a se formar. Apesar disso, as pessoas são constantemente avaliadas, o atendimento acontece de forma ágil e ninguém espera mais que 20 minutos para ser encaminhado lá para dentro. Já que não é possível entrar com os doentes nas áreas contaminadas, os acompanhantes ficam em agonia nas calçadas em volta, esperando notícias. O cenário ainda não é de colapso, mas dá para ver que está quase.

Hospital Israelita Albert Einstein anunciou que estava com mais de 100% de ocupação geral de leitos, mas nas periferias o recrudescimento da pandemia não é novidade. Pelo menos desde o começo de dezembro é assim no Tide Setúbal, e a ocupação dos leitos de UTI e internação para vítimas do novo coronavírus fica acima dos 90% por ali. Nesta semana flutua em torno de 95%, isso por que o hospital remove para outros de referência para covid-19 da rede municipal diversos pacientes por dia.

Covid-19 distribuídas por distritos da Prefeitura de São Paulo, com todas as mortes acumuladas desde o início da pandemia ano passado até 18 de fevereiro, a última atualização disponível, São Miguel Paulista é o quinto bairro onde mais morre gente da doença na capital paulista, com 235 mortes para cada 100 mil habitantes. Assim, quem vive ali tem 3,5 mais chance de morrer em decorrência da pandemia do que quem vive nos Jardins, área nobre da região central onde a taxa de mortes por 100 mil habitantes está em 67. Em São Miguel a situação da epidemia nunca deixou de ser grave.

UTI, mas ainda conseguimos atender todo mundo”, afirma um profissional da saúde que ajuda a coordenar um dos setores do hospital, mas não tem autorização da direção nem da prefeitura para falar sobre o hospital com a imprensa. “Enquanto tiver espaço em algum outro hospital da rede, conseguimos ir manejando para lá e para cá. Se todos encherem que nem aqui, vai ser o colapso total igual já estamos vendo em outros lugares”, afirma o profissional, que lamenta a falta de preocupação das pessoas de uma forma geral em relação à pandemia. “Você anda pela rua e dependendo do lugar virou raridade alguém de máscara ou com ela colocada direito. As pessoas desencanaram e o resultado é esse aí.

São Miguel tentar fazer um teste para covid-19 e buscar orientações. Com falta de ar, um pouco de febre e dor de cabeça, foi andando sozinho ao hospital. “Não faço ideia como posso ter contraído o vírus”, diz. “Mas acho que peguei porque não sinto cheiro direito e meu peito está chiando e doendo um pouco, então achei melhor vir ver antes de ficar pior.

Desde a semana passada, mas de segunda para terça-feira seu estado de saúde piorou e resolveu procurar o hospital. “Estou com muita diarreia, enjoo, dor de cabeça e no corpo, estou passando muito mal”, afirma a jovem. “Acredito que peguei no trabalho, fica muita gente no mesmo ambiente apesar dos cuidados”, diz. Sua mãe, a autônoma Maria da Penha, de 48 anos, diz que já pegou covid-19 no início da pandemia e ficou péssima. “Fiquei mais de 15 dias bem doente, até melhorar um pouco”, diz ela, que foi com a filha ao pronto-socorro e ficou esperando na rua depois que ela entrou. “Espero que com ela seja mais tranquilo por que ela tem asma. Até hoje sinto dificuldade de raciocinar direito”, afirma.

Aqui o PS e a internação para casos de covid-19 são separados, mas chega tanta gente lá que estamos tendo que receber”, diz um profissional de saúde que trabalha na UTI do hospital. “Impressiona a quantidade de gente jovem que já chega muito machucada buscando atendimento no pronto-socorro que não dá tempo de esperar a regulação de leitos e a transferência, temos que internar rápido.

Mooca, zona leste da cidade, estava com a movimentação tranquila na manhã desta terça-feira. A quantidade de cilindros de oxigênio enfileirados na porta onde estacionam as ambulâncias, no entanto, não deixam dúvidas do que se passa ali dentro. Pessoas que trabalham em comércios em volta dizem que em alguns dias têm se formado filas de ambulâncias com pacientes a espera de internação na unidade.

Nas cidades da Grande São Paulo, a ocupação de leitos é de 76,7%, segundo dados do Governo estadual. De acordo com o governador João Doria, 60% dos internados no Estado tem de 30 a 50 anos de idade e o atendimento pode entrar em colapso em até duas semanas se a transmissão do coronavírus não for freada. Em uma semana a ocupação de leitos cresceu 19%. Em algumas cidades como Araraquara, no interior, a ocupação passou dos 100% e pacientes tem de ser transferidos para outras cidades do estado, inclusive a capital.

Doria nas suas redes sociais na noite de terça. “Colapsar a rede de saúde significa que pessoas podem ficar sem atendimento médico. Diante da força dessa nova onda, os esforços não serão suficientes se a população não fizer sua parte”, diz o governador, que tem hesitado em adotar medidas mais duras de fechamento da economia. Nesta terça, o tucano se reuniu com prefeitos e prepara o terreno político e de comunicação para anunciar novas regras de confinamento nesta quarta-feira.

O Hospital Sírio-Libanês também está próximo de sua capacidade de internações. Nesta terça-feira, o hospital estava com 96% de todos os leitos ocupados. “Está puxado, todo mundo fazendo hora extra, o hospital lotado e não para de chegar gente”, afirma um médico do hospital. “Tem vindo muita gente de fora de São Paulo também. O pessoal entra no carro ou no avião de carreira já mal, se joga no PS e diz ‘me salva’. Nós salvamos, mas daqui a pouco não cabe mais ninguém aqui também.

Além do espaço, pelo jeito vai precisar ampliar os setores para covid-19, também é mais seguro para evitar a contaminação destes pacientes”, avalia um médico que atua no combate à pandemia no hospital. Ele também está preocupado com a reinfecção de colegas. “Nos principais hospitais da cidade, tanto públicos como privados, aqueles com mais funcionários, já são vários os casos de profissionais reinfectados pelo coronavírus. Conheço seis de um grande hospital oncológico onde atuo que além de estarem de molho com covid-19 pela segunda vez, já tinham tomado as duas doses de uma das vacinas”, diz. Segundo ele, nenhum caso de reinfecção citado por ele no entanto é grave.


FONTE: Brasil Elpais

Postar um comentário

0 Comentários