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Estratégia de vacinação gera receio sobre caldo

 


O mandamento final dessa carta aberta, a cereja no bolo da impertinente hipótese, era o seguinte: “Tendo desenvolvido uma excepcional vacina de duas doses, com uma eficácia extraordinária, seria preciso administrá-la a milhões de pessoas, mas atrasando a segunda dose”.

Países tomando a polêmica decisão de adiar a segunda injeção para dispor de mais doses na primeira rodada e assim vacinar mais pessoas sob risco o ministro da Saúde do Brasil, Eduardo Pazuello, anunciou nesta segunda-feira que o Governo Bolsonaro vai priorizar a aplicação da primeira dose. Muitos especialistas acham que esperar três meses entre uma dose e a outra pode fazer as defesas se enfraquecerem o suficiente para que o vírus aprenda a vencê-las.

Foi o primeiro a publicar essas “instruções para o desastre” em sua conta do Twitter. “Permitir que o vírus circule de maneira descontrolada, acumulando diversidade genética, e depois proteger de maneira incompleta a população com as vacinas é o que alguém faria para gerar mutantes resistentes às vacinas”, adverte Bieniasz.

Mudar e se tornar resistente aos anticorpos”, opina a virologista espanhola Isabel Sola. “Fico um pouco receosa, porque os vírus são como a água, que sempre procura uma fresta por onde escapar”, alerta a pesquisadora, que trabalha em uma vacina experimental contra a covid-19 no Centro Nacional de Biotecnologia, em Madri.

E,como todos os vírus, não para de mudar. Acumula aproximadamente duas mudanças de letra por mês. Pode parecer pouco, mas dentro de cada pessoa infectada há até um trilhão de vírus. E a cada semana há quatro milhões de novos doentes de covid-19 diagnosticados no mundo. O matemático francês Émile Borel cogitou esta ideia há mais de um século: um milhão de macacos esmurrando um milhão de máquinas de escrever poderiam acabar escrevendo Dom Quixote.

Vacinas disponíveis poderiam perder sua eficácia. “A aparição de mutantes que escapem às vacinas é possível, sem dúvida. E se alguma destas medidas políticas der lugar a respostas imunológicas menos marcadas ou de menor duração, esse escape será mais provável”, opina o biólogo Andrew Read, um dos principais especialistas mundiais na evolução dos vírus.

Papagaios gigantes da Nova Zelândia com aspecto de galinha e cara de coruja. Os kakapos são o resultado da seleção natural proposta em 1859 por Charles Darwin: como evoluíram em uma ilha sem predadores, não desenvolveram grandes mecanismos de proteção são aves incapazes de voar, procriam sem pressa, a cada quatro anos, e podem viver até um século. Quando os gatos chegaram à Nova Zelândia, acabou-se a tranquilidade dos kakapos. Restam apenas cerca de cem espécimes.

As primeiras vacinas foram lançadas em 1970, numa época em que esse agente patogênico arrasava as granjas. Em poucos anos começaram a ser detectados surtos entre os frangos já vacinados, então a vacina foi substituída na década de 1980. E nos anos noventa já foi preciso modificá-la de novo. Algumas cepas do vírus não só conseguiram se adaptar às vacinas como passaram a causar uma forma ainda mais grave da doença nas aves não vacinadas. Read acredita que, nesse vírus, as mesmas mutações poderiam explicar a resistência às vacinas e o aumento da virulência. No novo coronavírus, não há indícios deste comportamento.

Read recorda outros exemplos bem documentados de variantes resistentes a vacinas, como as dos vírus da hepatite B e da rinotraqueíte do peru. O biólogo norte-americano afirma que partir sem a ajuda de Darwin para lutar contra um organismo que evolui é como tentar chegar à Lua sem o que Isaac Newton ensinou. É preciso desenhar as vacinas antecipando-se à evolução ―por exemplo, induzindo defesas contra inúmeras partes do vírus, para que não tenha escapatória.

Um paciente imunodeprimido após várias semanas com covid-19. Nessas condições, o vírus se multiplicaria à vontade, acumulando mutações e gerando diversas variantes dentro do doente. Um tratamento com plasma sanguíneo de um doador convalescente, talvez com poucos anticorpos, poderia ter criado o caldo de cultivo perfeito para que uma nova variante com vantagens competitivas sobrevivesse.

Se você administrar uma primeira dose, mas após 20 dias não der a segunda, necessária para ter toda a força da vacina, você gera uma força de seleção: se houver algum mutante resistente, terá uma vantagem e poderá começar a infectar e se multiplicar em pessoas vacinadas”, adverte Domingo, pioneiro em investigar a variabilidade genética dos vírus, mais de 40 anos atrás. “Não se pode vacinar pela metade”, alerta.

Mas, no entender de Domingo, a vacina da covid-19 não estará nesta lista triunfal. “Nós, cientistas, estamos muito acostumados a nos enganarmos, então não vou ruborizar se daqui a três meses eu perceber que estava totalmente equivocado. Minha previsão é que com a vacina da covid-19 estaremos em uma situação parecida com a das vacinas da gripe, com uma eficácia parcial e uma necessidade periódica de atualizá-las”, especula.

Genoma tem apenas 13.500 letras, então o ritmo de mudança é “enormemente maior” que o do coronavírus, como explica a geneticista Emma Hodcroft, da Universidade de Basileia (Suíça). O vírus da gripe escapa com bastante frequência da ação da vacina, então é preciso atualizar a fórmula a cada ano.



FONTE: Brasil Elpais

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