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Brasil dá passo rumo à vacinação


Brasil enfim deu um passo importante nesta sexta-feira na corrida para começar sua campanha de imunização com a formalização dos pedidos para uso emergencial de duas vacinas à Anvisa desenvolvidas pelos laboratórios Sinovac e AstraZeneca. Agora, caberá à agência responder em tempo hábil às solicitações para que seja cumprida a maior expectativa, a de de que as primeiras aplicações comecem ainda neste mês. São Paulo mantém a previsão para o dia 25 de janeiro, e o Ministério da Saúde agora sinaliza que deve empurrar a campanha nacional para o dia 28.

Volume de imunizantes no horizonte ainda é pequeno para um país tão populoso. Também preocupa a velocidade com que as vacinas deverão chegar aos municípios mais longínquos, assim como a definição de detalhes operacionais em uma campanha mais sensível e que pode ter maiores problemas de segurança.

Por enquanto, o cenário para começar uma campanha deve incluir mais concretamente 10,8 milhões de doses da Coronavac, o trunfo paulista desenvolvido com o laboratório chinês Sinovac, que já estão sob a guarda do Instituto Butantan, e 2 milhões do imunizante da AstraZeneca, a aposta federal, que a Fiocruz deve receber entre 17 e 19 de janeiro importadas da Índia, uma produção em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Sob pressão, o Governo Bolsonaro assinou nesta semana o contrato para incorporar as doses do Butantan no plano nacional, cujo texto prevê a entrega do primeiro lote até o dia 31 de janeiro, mas não está claro quando as doses irão de fato para os estoques do Ministério da Saúde.

Vacinação em si ainda são pouco precisas, tanto na comunicação com a sociedade quanto nas conversas reservadas com os gestores de saúde. Não se sabe, por exemplo, como será feito o rateio das doses por Estado. A gestores públicos, altos cargos do ministério têm dito que obedecerão a proporcionalidade populacional e que trabalham em um desenho estratégico de distribuição. Sinalizam que, provavelmente, os primeiros a serem contemplados com as doses seriam idosos internados em instituições e trabalhadores da saúde que atuaram diretamente no combate à pandemia. E frisam que, logo que houver autorização da Anvisa para uso emergencial de uma vacina, começará a distribuição.

Vacinar os grupos prioritários idosos, profissionais de saúde, quilombolas e indígenas, considerando a estimativa do ministério e a aplicação de duas doses. E na ponta, a preocupação dos gestores de saúde está principalmente nas lacunas que perduram sobre uma logística complexa para fazer o imunizante chegar nos lugares mais longínquos e no prazo para a aplicação das duas doses que requerem as vacinas mais promissoras ao país neste momento, ainda que ambas tragam a vantagem de poderem ser armazenados na rede de refrigeração já existente no SUS.

Explica o assessor técnico do Conselho Nacional dos Secretários Municipais da Saúde (Conasems) que tem acompanhado as tratativas com o Ministério da Saúde, Alessandro Chagas. O ministro Eduardo Pazuello já disse que, com as doses nos estoques, demoraria até cinco dias para distribuí-las a todos os Estados. A partir daí, cabe aos governadores enviá-las aos municípios, os responsáveis pela aplicação das doses. A gestão municipal é a que detêm a perna mais frágil do SUS e também passa agora por mudanças de gestão com os novos mandatos iniciados neste mês.

Secretários Estaduais da Saúde (Conass), Carlos Lula. “Quem vacina é a cadeia mais frágil, e temos muitas gestões novas, assumindo pela primeira vez. Os municípios precisam estar preparados com EPIs [equipamentos de proteção individual]. Os maiores estão, mas a maioria é de cidades pequenas, que têm problemas no dia a dia com coisas básicas”, detalha.

É a carga mais valiosa do mundo neste momento, não pode ficar armazenada de qualquer jeito. Se não nos preocuparmos com isso, vamos ter casos de furtos, de arrombamentos”, endossa Carlos Lula. Por enquanto, apontam os gestores, a questão da aquisição de seringas não é um problema. Eles dizem que os municípios têm estoque para iniciar a aplicação, mas cabe o Governo Federal fazer a reposição nestes primeiros meses. O ministério tem enfrentado dificuldade na aquisição, e o STF já sinalizou que ele não poderá requisitar os insumos de Estados e municípios.

Expectativa é de que ao longo dos meses o Governo incorpore ao PNI mais imunizantes. O Ministério da Saúde tem negociado, por exemplo, para incluir a vacina russa Sputinik. Os desafios têm pesos diferentes entre os perfis municipais. Se por um lado as pequenas cidades conseguem fazer um maior acompanhamento do paciente na atenção básica diante da densidade populacional menor, nas maiores há mais dificuldade de garantir que o usuário tome a segunda dose, uma dificuldade que vem de outras campanhas. “Historicamente cai muito a adesão dos pacientes a uma segunda ou terceira dose. A novidade que o ministério está trazendo é um sistema para fazer este controle eletrônico”, diz Carlos Lula.

Bolsonaro tem advogado contra a obrigatoriedade da vacina e dito que não é contra nem a favor delas. E especialmente após mais de dez meses de mensagem difusa sobre os métodos não farmacológicos de prevenção, como medidas restritivas, uso de máscaras e isolamento social. Também pesa sobre isso os recentes problemas de transparência durante o anúncio dos dados do ensaio clínico da Coronavac no Brasil. A vacina pode diminuir internações em 75% e 100% de óbitos, mas os dados gerais de eficácia ou seja, quanto o imunizante evita a infecção ainda não foram divulgados. O imunizante é um dos que enfrentam maior resistência em meio à disputa ideológica brasileira. “Depois de tudo que a gente viveu em um ano, temo desafio da gente fazer a sociedade acreditar na vacina. O percentual de pouco mais de 60% disposto a se vacinar é baixo”, salienta Carlos Lula.


FONTE: Brasil Elpais

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