CONFIRA

Não consigo autorização para sair o drama dos trabalhadores

 


Já começaram os controles aleatórios para verificar que ninguém entra nem sai sem uma causa justificada. Nos distritos madrilenhos de Vila de Vallecas e Puente de Vallecas, nove distritos sanitários estão sob restrição ―Entrevías, Martínez de la Riva, San Diego, Numancia, Peña Prieta, Pozo del Tío Raimundo, Ángela Uriarte, Alcalá de Guadaira e Federica Montseny. Os agentes mandam alguns veículos pararem junto à calçada, onde informam que não podem passar sem comprovar motivo profissional, médico, de estudo ou administrativo, cuidado de dependentes ou outra razão de força maior. Hoje não haverá multa. Amanhã também não. Mas a partir da quarta-feira, sim.

Guardam a distância como podem na estreita calçada diante da escola. Marisa Sanabria é uma delas. É paraguaia, não tem documentos e trabalha “no que vai aparecendo”, sem nenhum tipo de contrato. “Limpando casas, trabalhos assim”, conta. Para isso, tem que se deslocar para fora do distrito e sabe que não será fácil. “Não consigo uma autorização que me permita me deslocar”, diz. Terá que se arriscar e espera ter “sorte” de não ser parada num controle. Embora as autoridades neguem as acusações de classismo, o fato é que as áreas confinadas são mais pobres, mais densas e têm uma alta proporção de população imigrante.

Hotelaria no bairro de Chamartín e acredita que o aumento dos contágios é uma responsabilidade coletiva. “As pessoas precisam cumprir os protocolos, eu convivi com gente infectada e não peguei. Lavo as mãos e tomo todas as precauções”, conta Santos. Considera que as medidas são discriminatórias e que o pequeno comércio será sufocado. Os bares e restaurantes das 37 áreas confinadas ―26 delas em Madri, e os demais nos municípios vizinhos de Fuenlabrada, Humanes de Madri, Moraleja de Enmedio, Parla, Getafe, São Sebastián de los Reyes e Alcobendas― terão de fechar às 22h a partir desta segunda.

Aitor Recio veio buscar um pacote e conta que isto ocorre acontece desde que “o bicho” chegou e a agência deixou de abrir à tarde. Recio trabalha num asilo de idosos do bairro, onde há casos de coronavírus. “Algum de nós pegamos, mas por enquanto a coisa está controlada”, conta, para salientar que a atual situação é completamente diferente da de março.

Normalmente, o estabelecimento podia ter até 18 mesas, mas agora, devido às restrições de lotação de 50%, só há nove. Ilsen Melgar, a mulher que administra o bar, diz que “pessoalmente” considera as medidas razoáveis. “Isto aqui se encheu [depois do confinamento], nunca tivemos tanto trabalho, mas nem todo mundo cumpriu as medidas, acho que influenciou para estarmos assim agora”, afirma. Ela assegura cumprir todas as restrições e só espera que a coisa passe logo e a vida volte a ser o que era o quanto antes.

Fazer exames PCR, segundo Paco Martínez, auxiliar administrativo do centro. “Não estamos entre os piores, mas a situação geral do atendimento primário em Madri é de muita saturação”. No seu entender, é muito difícil encontrar médicos porque as condições oferecidas na Espanha são piores que em outros países. O posto de saúde Ángela Uriarte está atualmente com quase todo o seu pessoal, mas, na opinião de Martínez, a situação não é motivo para festejar: “Mesmo com todo o pessoal, nossa capacidade é limitada. Com quase todos os recursos dedicados ao coronavírus, as demais doenças são tratadas como se pode, segundo a urgência”.

Governo [regional de Madri, comandado pelo direitista Partido Popular]”, arrisca. A limitação de horário foi um golpe duro para ele: “Era o horário em que o pessoal costumava vir tomar uma cerveja depois do trabalho, aí com esta restrição afundaram o nosso caixa”. Não sabe o que acontecerá, mas não tem muitas esperanças. Paga 800 euros (cerca de 5.100 reais) de aluguel e cogita fechar. Na mesma linha, o dono de uma tabacaria próxima, Miguel Delgado, acha que os políticos “não têm nem ideia do que estão fazendo”. Delgado, que vive em Moratalaz e vai todos os dias para o trabalho, tampouco sabe dizer qual seria a solução. Nele se misturam a raiva e a indignação.

Embora as segundas-feiras sejam dias fracos, Montse Esteban, uma das trabalhadoras, conta que hoje não é normal que esteja tudo tão parado. “Devem ter vindo umas 20 pessoas o dia todo, nunca tínhamos chegado a este extremo”, conta. Esteban acha que a clientela sumiu porque o Governo regional não soube explicar bem as medidas. “As pessoas acham que não podem sair de casa, nem têm claro que é por zonas de saúde nem o que podem fazer ou não.” Segundo conta, vários comerciantes do mercado que funciona no mesmo edifício se queixaram da falta de informação.



FONTE: Brasil Elpais

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