CONFIRA

A covid-19 forçou uma reinvenção

 


Projeto Borboleta, uma metodologia de alfabetização famosa no interior do Piauí, apontada como um dos segredos das cidades piauienses que tiveram melhora no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Não se trata apenas de uma perda de conteúdo. A falta do espaço de interação social da escola e a obrigação de isolamento, em uma fase em que a criança tem sede de conhecer, engordam a lista de violências causadas pelo coronavírus. Apesar disto, as professoras se recusam a dizer que 2020 é um ano perdido para a educação.

Ela vê uma luz em meio a tantas dificuldades. “A covid-19 está forçando uma reinvenção do fazer na escola pública, que, no momento de crise, fez chegar ao aluno, nas condições que esse aluno podia receber, o material xerocado, as aulas no rádio, no Whatsapp, com carro de som, pelo telefone. Não paramos. Trabalhamos mais do que antes”, garante. “No celular particular de um professor chegam aproximadamente 500 mensagens ao longo do dia. E esse professor responde a todas elas. E a criança no quintal dela, em cima de uma mesa improvisada, faz as atividades que chegam”.

Relatos de como os alunos mais vulneráveis driblam as dificuldades ―acesso à Internet, entendimento do material, local adequado para estudar―, para acompanhar o ensino a distancia, mostram a face perversa da desigualdade no Brasil. “Frente a essa realidade, o desafio da escola é manter o vínculo com a criança, mostrando que se importa e não desistiu dela. Incentivamos o estudo em casa, mantendo uma relação de afetividade”, afirma Lima.

O próprio comportamento das famílias em relação a escola já não é o mesmo. “Hoje, cada pai e mãe entende a labuta que é o trabalho do professor, porque, de uma certa forma, eles estão dividindo tarefas que antes eram do professor integralmente. E mesmo com limitações, seja de leitura ou de saberes, as famílias encontram formas de contribuir”, lembra Morais.

Escolas para se adaptar às novas demandas para uma reabertura do espaço escolar. Osana Morais lembra que, ao contrário da rede particular de ensino, a grande maioria das escolas públicas ainda não tem um aparato tecnológico disponível. “Muitas ainda estão na transição do quadro de giz para o pincel”, afirma. A possibilidade de um retorno híbrido das aulas, em forma presencial e remota, vai existir investimento em tecnologia. “É necessário mais criatividade, mas também investimento e vontade, para nos reinventarmos.

É preciso uma política pública direcionada. Sinto falta de um líder na Educação. Se pensarmos em retorno, qual a estrutura a escola terá? Precisamos de novas escolas, com qual formato? Quem vai financiar gel, máscaras? São questões complexas e, até o momento, ninguém para respondê-las”, afirma.

Piauí, que tem uma das notas mais altas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Estado. Mas, afinal, como funciona essa metodologia de alfabetização? “É um método educacional de transformação da prática pedagógica do professor e da aprendizagem do aluno”, resume Ruthnéia Lima.

Construída a relação entre a criança e o pedagogo. O primeiro passo é diagnosticar os níveis de leitura e escrita dos alunos de acordo com as particularidades de cada um deles. “Fazemos uma espécie de ressonância magnética no letramento e numeramento da criança. De que forma ela enxerga a estrutura das palavras e dos números”, explica.

Levando-se em conta quais as especificidades precisam ser desenvolvidas em cada estudante. “É um trabalho de lupa perceber quais os potenciais de cada criança, e o que pode ser otimizado. É assim que construímos nossa metodologia”, diz a educadora.

Primeiros passos da alfabetização; andorinha, um segundo passo, mas ainda um animal frágil que voa baixo; ganso, pela capacidade de organização coletiva da ave, que voa o tempo todo em bando e de forma sincronizada; e águia, que enxerga o mundo “em 360 graus”, com a capacidade de interpretar, questionar e discutir.



FONTE: Brasil Elpais

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