CONFIRA

Estados Unidos vivem clima de normalidade



Há um pico inicial em março e abril, como em todos os países. Da mesma forma, uma diminuição progressiva em maio. De repente, a tendência se inverte. Enquanto nos outros países a taxa de contágio permanece baixa, nos EUA explodiu na segunda quinzena de junho. A curva tem a forma de chifres. As causas são várias e não está claro que peso tem cada uma. Mas o principal é que os norte-americanos perderam o medo do vírus. Estão marcando encontros, saindo, viajando e indo à praia. Faltam algumas semanas para se saber as consequências em hospitalizações e mortes. Enquanto outros países estão bem ou mal, mas pelo menos sabem onde estão, os Estados Unidos estão em terreno desconhecido.

Cerca de 130.000 pessoas morreram. Toda vez que o governador da Califórnia dá os números totais do Estado, acrescenta: “Obviamente, as pessoas não vivem no acumulado, vivem em algum lugar”. O mesmo acontece com os números nacionais dos Estados Unidos. Os problemas estão em lugares específicos. Concretamente, naqueles que se livraram do primeiro impacto. O vírus não está voltando, está viajando das costas para o interior.

Michigan e Washington também sofreram surtos. A partir de junho as infecções nesses Estados diminuíram entre 46% (Connecticut) e 87% (Nova York) desde o pico. Agora, três quartos dos novos casos estão no resto do país. Os Estados Unidos registram mais de 50.000 casos diários há três dias seguidos. Os números são entre “preocupantes” e “alarmantes”, dependendo do especialista que fale cada dia. “Inquietante”, disse o principal epidemiologista do país, o médico Anthony Fauci.

Flórida e Texas tinham um baixo número de contágios. Começaram a abrir suas economias e a média semanal de positivos aumentou entre 600% e 900%. Na Califórnia, o Estado em que foi registrada a primeira morte por covid-19 e o primeiro a impor ordens estritas de quarentena, a curva permaneceu baixa até a economia começar a abrir.

Grande número de contágios entre as pessoas que sentem que a epidemia já passou.” Este argumento é mais amplo. As pessoas não estão apenas fazendo reuniões em casa, mas viagens não essenciais que foram adiadas durante meses. Nos EUA sempre foi possível sair de casa para passear e viajar de um lugar para outro. Mesmo assim, “existe um clima de exaustão devido ao confinamento” e o desejo de levar uma vida normal. “Eu continuo sem sair de casa. Continuo comprando tudo pela Internet e continuo sem ver ninguém, como no primeiro dia”, diz Bustamante.

Capacidade de detectar positivos é maior.” Ou seja, antes havia muita gente assintomática ou com sintomas leves que superava a doença sem nunca fazer o teste. O teste de covid-19 agora é “praticamente universal”. No início de abril, 100.000 testes eram feitos diariamente. Agora são mais de 600.000. “Comparar o número de positivos com o início da pandemia não é justo”, afirma Bustamante. As próximas três ou quatro semanas serão determinantes para ver como esses casos evoluem. “Se acabarem em complicações e hospitalizações, será mais crítico. Então é quando talvez seja necessário reverter as medidas.

Um dos dados que inspiram certo otimismo é que boa parte dos novos casos tem um perfil mais jovem do que o que se viu em Nova York em abril. Metade dos casos do Arizona tem entre 20 e 44 anos. A idade média das pessoas infectadas na Flórida caiu de 65 para 35 anos. Os jovens estão sendo infectados, o que poderia indicar que apenas uma parte dos contágios acabará no hospital. De qualquer forma, a pressão nos hospitais de Phoenix e Houston já está sendo sentida.

A divisão política no país está começando a afetar a prevenção. “Este país está muito dividido e isto está entrando na saúde pública, o que deveria ser algo fora de discussão. Estou preocupada.” O exemplo mais notório é o do presidente Donald Trump, que até hoje se recusa a usar máscara em público. Até os governadores do Texas e do Arizona, que são hooligans do presidente, usam máscara e pediram à população que o fizesse. No Texas ela é obrigatória a partir desta semana. “Existe uma forte correlação com o aspecto político. A infecção não foi tratada do ponto de vista da saúde pública”, mas da postura política. Na opinião de Pourat, falta uma estratégia federal e a resposta está sofrendo por causa da cacofonia entre as Administrações federais, estaduais, regionais e locais, às vezes com normas contraditórias.

Estados Unidos entram em semanas de incerteza. O país é um gigantesco laboratório em que o mundo vai comprovar o que acontece quando boa parte da população perde o medo do vírus e começa a levar vida normal. A comemoração familiar que define o país, o 4 de julho, será a prova de fogo que definirá em qual direção a pandemia está indo.


FONTE: Brasil Elpais

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