CONFIRA

Shoppings derrotam medo da covid-19 em São Paulo



Fase mais rígida da quarentena, já havia gente esperando às portas do shopping Tatuapé uma hora antes do horário previsto—os estabelecimentos só podem funcionar entre as 16h e as 20h—. Aos menos 250 pessoas faziam fila para entrar no popular centro de compras da zona leste da cidade. Eram famílias com crianças, casais e grupinhos de jovens que, embora com receio pelas mais de 5.000 mortes registradas na cidade por covid-19, aproveitaram a oportunidade para resolver pendências ou simplesmente matar a saudade do bastião de lazer da maioria dos brasileiros. A atração pelos shoppings derrotou o medo da doença cujo total de mortos nacionais passou de 40.000 nesta sexta-feira.

Mas, por outra, com o número de mortes aumentando, não é uma boa ideia abrir agora”, pondera Ingrid Pereira da Silva, de 20 anos, também na fila para entrar no Shopping Tatuapé. Ela foi ao local comprar um tênis e contou que, assim como outros membros da família, já foi infectada pelo novo coronavírus. O Brasil já soma oficialmente 802.828 casos confirmados, de acordo com o Ministério da Saúde, um número certamente abaixo do real porque não há testes suficientes no país.

No Tatuapé, dois profissionais de saúde checavam a temperatura das pessoas que entravam. Esses profissionais, no entanto, descumpriam algumas das recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde), ao tocar, por exemplo, no ombro ou no tórax dos consumidores. Os frequentadores levavam, quase todos, máscaras de proteção facial, mas muitos as tinham no queixo, penduradas de uma orelha ou as retiravam para falar com alguém. Os responsáveis pelo shopping repetem que há máscaras e álcool em gel disponíveis para os clientes, que haverá restrição para o uso de elevadores e que um sistema de monitoramento por câmeras impede a lotação de lojas.

Por outros locais da cidade, especialmente os populares, confirma o receio de boa parte dos epidemiologistas, que apontam como prematura a reabertura do comércio tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro. Os especialistas afirmam que as duas maiores cidades brasileiras não apresentam quedas sustentadas nem de casos nem de mortes para justificar o risco de reabrir shoppings.

Entre os que esperavam para passear no Shopping Tatuapé, os discursos variavam. “Hoje em dia, com o número de gente que está morrendo, não deveriam reabrir. Tenho medo, mas tive que vir”, justifica-se Maurício Sérgio, de 17 anos, que acompanhava duas irmãs mais novas. “Tinha que resolver uma coisa em uma loja de eletrodomésticos e aproveitei para passear mesmo, dar uma volta”, disse.

Acho que tem que tomar os devidos cuidados, usar a máscara, lavar as mãos, mas já deveria ter reaberto tudo há mais tempo. Tenho uma filha que é enfermeira e, em casa, eu lavo até a sola do sapato dela”, contou ela, que também tem uma sobrinha com covid-19 que está isolada em casa há 12 dias.

Na França, por exemplo, a saída do período de isolamento social foi marcada por filas enormes nas portas de lojas de departamento. As cenas brasileiras desta quinta carregam um simbolismo ainda maior de uma cidade que jamais parou como Madri ou Paris —seguiu mandando milhares para ruas para trabalhar na construção civil, por exemplo — e que enxerga nos shoppings um lugar muito além das compras. “Culturalmente, e também pela questão da segurança, o shopping é onde as pessoas se divertem, namoram, passeiam, onde se sentem protegidas. São lugares que fazem parte do cotidiano médio de qualquer brasileiro e esse cidadão tinha perdido seu principal lazer fora de casa”, explica a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora de Desenvolvimento Internacional da University of Bath (Reino Unido) e autora de um estudo sobre marcas, consumo e segregação no Brasil.


FONTE: Brasil Elpais

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