CONFIRA

Próximo centro global da pandemia Brasil


Governo Bolsonaro. O país, que já soma 40.919 mortes e 802.828 casos da covid-19 e caminha para se tornar o principal epicentro da pandemia no final do próximo mês, não recebeu do Ministério da Saúde por três dias os dados completos sobre a doença e foi avisado, de forma casual pelo presidente da República, dos planos de uma mudança de metodologia que impactaria as estatísticas, jogando-as para baixo. Após uma decisão liminar do Supremo Tribunal Federal, o Governo teve que voltar a divulgar o número total de mortos pela doença. E o ministro interino Eduardo Pazuello, chamado a dar explicações a deputados, afirmou que tudo era apenas uma “proposta” e que, em breve, uma nova plataforma seria lançada, com dados completos e detalhados —divulgada nesta sexta-feira, trouxe apenas dados já conhecidos. A breve alteração, entretanto, já havia movido a imprensa e os especialistas, que correram para colocar plataformas próprias de contagem no ar. E acendeu um alerta entre pesquisadores, que seguem debruçados sobre a checagem das informações oficiais e defendem mais transparência.

Apenas as mortes que ocorreram nas últimas 24 horas e não mais tudo o que foi registrado neste mesmo período pelos Estados. O dado seria muito menor, já que o país não tem capacidade de testar rapidamente os casos suspeitos e as confirmações, às vezes, acontecem só após o óbito —reportagem da Folha de S.Paulo desta sexta aponta que 44% das vítimas ficariam de fora das estatísticas diárias por esse novo método. Atualmente, 3.608 óbitos por síndrome respiratória, ou seja, ocorridos com sinais compatíveis aos da covid-19, ainda esperaram resultados.

Governo de mudar a forma de divulgação dos dados está relacionada ao fato de que o país caminha para se tornar o primeiro epicentro da pandemia no mundo. “Nós somos o único país no mundo que depois do dia 50 estava acelerando no número de casos e de óbitos. Temos projeções que indicam que podemos chegar a 5.000 óbitos por dia em julho”, afirma. “O Brasil até agora não fez uma gestão da epidemia porque só testamos em média as pessoas que estão internadas e, portanto, já isoladas. Não estamos isolando quem está transmitindo a doença porque não testamos em massa. Não houve nenhuma política de isolar os contactantes”, critica ele.

Isso gerou uma reação forte da comunidade científica, que temia o uso de um dado real para apresentar um panorama distorcido da epidemia no país. Atualmente, epidemiologistas que analisam o comportamento do novo coronavírus no Brasil já consideram em seus estudos as datas de ocorrência do óbito, fazendo projeções que levam em consideração também o atraso para a testagem. Foi esmiuçando esses dados, por exemplo, que o Observatório Covid-19 BR chegou à estatística de que 61% dos óbitos demoram mais de dez dias pra chegar ao sistema e que apenas 0,7% deles são computados no mesmo dia de ocorrência.

Hospitalizações por síndrome aguda respiratória grave (SRAG), uma complicação da covid-19 e também de outras síndromes gripais. Num cenário de poucos testes e demora para os resultados, as internações por SRAG têm sido uma importante métrica para observar o avanço da epidemia. Nos últimos dias, o próprio Pazuello falou em simplificar formulários de registros desses casos. Sem detalhar como seria essa unificação, acendeu novos alertas em meio ao ruído já causado pela tentativa da semana passada de divulgar parcialmente os dados.

Alta gama de enfermidades pelos hospitais. O país também tem um Sistema Único de Saúde que permite um acesso amplo a hospitais e, consequentemente, uma maior notificação. Um desses sistemas é o Sivep-Gripe, pelo qual pesquisadores têm conseguido também uma série de microdados relacionados à SRAG, que incluem informações como localização, raça, idade e comorbidades dos pacientes. “O sistema de vigilância sanitária do Brasil é um dos melhores do mundo. Temos um dos maiores quadros de doenças notificadas compulsoriamente. O fato de o Brasil ter o SUS e uma vasta quantidade de doenças que devem ser informadas compulsoriamente torna nossos dados muito confiáveis”, explica o cientista Vítor Sudbrack, físico que integra o Observatório Covid-19 BR. Ele explica que o sistema tem problemas técnicos ―como por exemplo a permissão de pontuações em campos de observação que podem atrapalhar a leitura numa linguagem de programação― mas que é rico em confiabilidade dos dados.

Os dados fidedignos são importantes para controlar a doença enquanto ainda não há vacina nem tratamento com eficácia comprovada. Eles ajudam na tomada de decisões dos gestores e a mostrar para a população, por exemplo, porque é preciso manter o isolamento nas regiões mais afetadas. “O que a gente vê é que os recursos que temos acabam não sendo usados, sendo sucateados ou sendo usados com posição duvidosa”, afirma Sudbrack. Se o Ministério da Saúde passar a disponibilizar o que prometeu na nova plataforma ―ou seja, incluir os números de óbitos por data de ocorrência e também os acumulados―, ele vê a revisão como positiva. Por enquanto, o Observatório segue analisando a base de dados nacional e checando os números com àqueles apresentados pelos Estados que acessam os mesmos sistemas. “A revisão, quando bem feita, clara, transparente e debatida, é bem vinda”, diz.

CEP de infectados e pessoas que morreram pela covid-19. O LabCidade, da USP, chegou a desenvolver uma plataforma para o acompanhamento de casos por rua em São Paulo, mas esse dado foi retirado da base de dados do Ministério. “No caso da variável CEP, a informação é caracterizada como sensível já que facilita a identificação do indivíduo. Por isso, respeitando a Lei Geral de Proteção aos dados – LGPD (Lei nº 13.709/2018), foi retirada. Esta ação contribui para garantir e preservar a privacidade do cidadão”, explica a pasta. O dado não deve retornar nem mesmo com a decisão do STF na última segunda-feira (8), já que desde 2 de junho (antes da mudança na divulgação) já não estava disponível ao público.


FONTE: Brasil Elpais

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