CONFIRA

Não se pode pensar a democracia real



Na esteira da onda de protestos contra a morte de George Floyd, homem negro rendido e asfixiado pelo joelho de um policial branco nos Estados Unidos, e em que uma pandemia tira a vida da população mais pobre que não pode ficar em casa para se proteger, essa frase parece ser desse duro ano de 2020. Mas é um trecho do manifesto de fundação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, que em julho de 1978 fez um grande ato nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo para convocar homens e mulheres negros a protestar contra a violência racial.

Enquanto houver racismo não haverá democracia” é promovida pela Coalizão Negra por Direitos, que reúne mais de 100 entidades do movimento negro de todo o país, em parceria com os coletivos Legítima Defesa e Frente 3 de Fevereiro. Busca coletar assinaturas para promover uma “frente ampla” em torno de ações de combate ao racismo e a cobrança junto ao poder público de direitos como educação, emprego e segurança. E parte do entendimento de que a luta antirracista precisa ganhar centralidade nas discussões em defesa da democracia e contra o Governo Bolsonaro que ganharam força nas últimas semanas.

Real compromisso de enfrentamento ao racismo. Convocamos os setores democráticos da sociedade brasileira, as instituições e pessoas que hoje demonstram comoção com as mazelas do racismo e se afirmam antirracistas: sejam coerentes. Pratiquem o que discursam", diz o texto do manifesto.

Democracia real no país se o racismo não for um ponto central”, explica Eugênio Lima, fundador do Legítima Defesa e Frente 3 de Fevereiro e um dos articuladores da iniciativa. Para ele, a pauta não pode ser lateral nos protestos de rua contra o autoritarismo ou mesmo em manifestos que pregam unidade em prol do regime democrático como o #Juntos, também publicado em jornais em maio, que une do petista Fernando Haddad ao apresentador Luciano Huck em uma campanha que tenta emular a frente obtida nos anos 80 com o Diretas Já.

É uma pauta para a sociedade brasileira. Neste momento em que se discute como a gente pode pensar numa nova estrutura democrática para a sociedade, não existe democracia sem o combate ao racismo”, afirma Lima.

Endossam também o texto as pesquisadoras Djamila Ribeiro e Sueli Carneiro, o ambientalista e líder indígena Ailton Krenak e nomes internacionais como Danny Glover, Mia Couto e Valter Hugo Mãe. Novas adesões serão coletadas pelo site comracismonaohademocracia.org.br, lançado também neste domingo. Ao todo, segundo o articulador, cerca de 5.000 assinaturas já foram obtidas em uma pré-campanha via WhatsApp.

Vencida quando toda a sociedade passar da comoção em relação “à crueldade praticada contra negros” para mudanças concretas que promovam igualdade, promovidas por quem está no poder em sua maior parte, brancos. Daí a estratégia inicial da publicação nos jornais de circulação nacional. “Muitas vezes parece que a prática antirracista é uma escolha, e não uma condição para a democracia existir. Não: a luta antirracista é a sobrevivência da democracia.


FONTE: Brasil Elpais

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