Clique abaixo para manter o site online

Fadiga da quarentena leva até os defensores do isolamento



Para mim, não se trata de furar a quarentena. Foi uma troca de afeto, um gesto até de autocuidado em tempos tão difíceis”, justifica ele, que, apesar da transgressão, defende a necessidade de que as pessoas fiquem em casa para evitar a propagação do coronavírus. Passados cem dias desde que cidades como São Paulo começaram a restringir suas atividades, os casos de covid-19 não param de bater recordes no Brasilnesta terça, já somavam 52.000 mortes e 1,14 milhão de casos. Mas a cada final de semana ruas e áreas de lazer estão cada vez mais lotadas pelo país, elevando o perigo de contaminação em massa —em um contraste com o que se via no início da pandemia, quando as cifras não eram nem de perto tão assustadoras.

Acontece porque os mecanismos de alerta do corpo humano, principalmente os cerebrais (com atuação da amígdala e hipocampo), que entram em ação ante um perigo, como a possibilidade de infecção por um vírus, entram em colapso depois de um tempo. É o que alguns especialistas chamam de “fadiga da quarentena” ou falência adaptativa. “Nosso sistema faz esforços para nos adaptar a situações novas e indesejadas, de privação. Mas, quando somos obrigados a fazer isso por muito tempo, esse mecanismo entra em falência e não conseguimos mais racionalizar”, explica Ricardo Sebastiani, especialista em psicologia clínica e saúde pública.

A isso, somou-se a emergência sanitária e a necessidade de instalar mais leitos, equipar hospitais e profissionais de saúde. Nesse momento, dizem os especialistas, a sociedade, coletivamente, estava mais propensa a ficar em casa para achatar a curva de contágio. “Mas agora a verdade é que, enquanto não tivermos uma vacina, para muitos não se trata de ‘e se eu pegar a covid-19′, mas sim de ‘quando eu pegar a covid-19′. Quando o medo imediato some, as pessoas voltam a fazer churrasco e a lotar as praias”, diz Sebastiani. Algo especialmente comum entre os mais jovens, que acreditam estar mais protegidos dos efeitos mais graves da doença do que os idosos, ainda que os dados mostrem que eles formam um contingente significativo de pessoas internadas por covid-19.

Respeito ou descumprimento das medidas de isolamento. Ela constatou que estudantes e desempregados demonstraram maior intenção de violar a quarentena, por necessidade de trabalho, uma questão de subsistência. “Agora, as pessoas já estão muito ansiosas pelo fim da pandemia e há a incerteza de quanto ela vai durar. Todo mundo sente falta de contato e, de certo modo, é natural que as pessoas comecem a buscar esses reencontros sociais”, diz. A psicóloga pondera, no entanto, que as saídas aparentemente inofensivas podem gerar um efeito dominó. “Ainda não chegamos no patamar de outros países que controlaram a pandemia e retomaram uma rotina. Ainda é preciso ter cautela, porque, se esse tipo de comportamento se generalizar, os casos podem continuar crescendo e até de forma mais rápida”, alerta.

A psicanalista Amanda Mont’Alvão Veloso explica que, como o Governo não tomou as medidas necessárias para controlar a pandemia e não houve, assim, uma diminuição do número de casos e mortes, pode nascer em algumas pessoas uma espécie de ressentimento. “Passados três meses, como os resultados desse sacrifício não foram os esperados, algumas pessoas podem passar a descumprir a quarentena, até mesmo com atitudes vistas como egoístas”, diz ela. A psicanalista, assim como especialistas em saúde pública, lembra que as medidas de isolamento foram essenciais para que os trágicos números da epidemia não fossem ainda maiores e colapsassem o sistema de saúde, provocando uma maior taxa de mortalidade no país.

Desde a chegada da pandemia, o presidente Jair Bolsonaro advoga contra o isolamento e se refere à doença como uma “gripezinha”, contrariando as medidas mais restritas adotadas por Estados e municípios. E enquanto as mortes só aumentam no país, o próprio presidente e seus filhos colocam em dúvidas os números oficiais, sem qualquer comprovação de que haja problemas nos registros feitos pelos Estados. “Essa guerra de informação e contra-informação arrefece a [sensação de] gravidade da situação”, diz Sebastiani.

São cem dias de privações e medo, durante os quais recebemos muitos estímulos negativos e poucos estímulos positivos. Fomos privados até dos pequenos prazeres do dia a dia, como tomar café com um amigo”, diz Sebastiani. “Tudo isso faz com que a situação se torne insuportável em algum momento e passa a ser uma questão de o quanto vale a pena detonar a saúde mental para preservar a saúde física”, acrescenta.

Alertam que tanto o medo da covid-19 como o isolamento, de fato, podem gerar danos como depressão, como apontou uma pesquisa do Ministério da Saúde. O que se pode fazer para amenizar isso? “Não é a mesma coisa, mas é importante manter contato com os amigos e familiares através da tecnologia, tentar se exercitar em casa e fazer atividades de abstração. E lembrar que, embora não saibamos quando, isso vai passar”, diz Farias.


FONTE: Brasil Elpais

Postar um comentário

0 Comentários