CONFIRA

António Guterres Relação disfuncional entre EUA China e Rússia



Mas António Guterres, nascido em Lisboa há 71 anos, está convencido de que a maior organização internacional ainda funciona e tem um futuro pela frente. O nono secretário-geral da ONU afirma em entrevista ao EL PAÍS, Die Welt e La Tribune de Genève, que fazem parte da Aliança de Jornais Líderes na Europa (LENA, na sigla em inglês), que agora o mundo precisa, mais do que nunca, de uma liderança forte: “Precisamos de uma liderança global, senão não podemos responder de forma eficaz a desafios como os de uma pandemia. No entanto, infelizmente, onde há poder, não há liderança, e onde há liderança, falta poder.

Adotado desde o pós-guerra, para se entregar ao lema “America First” (“EUA em primeiro lugar”) do inquilino da Casa Branca. O confronto entre EUA e China não parou de se agravar, os pactos de controle de armas estão desmoronando, a situação em relação ao Irã e à Coreia do Norte é imprevisível, o mundo vive uma grave crise de refugiados e a pandemia causada pelo coronavírus deixou quase meio milhão de mortos no mundo.

Guterres, que é formado em engenharia elétrica e foi primeiro-ministro socialista de Portugal (1995-2002) e alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (2005-2015), conectou-se pontualmente de Nova York.

Os países em desenvolvimento se salvariam pelo menos da catástrofe. As coisas voltariam à normalidade em dois ou três anos. Mas também há um cenário pessimista, originado pela falta de uma resposta coordenada, que seria um desastre para o hemisfério sul e geraria uma significativa segunda onda no norte, com consequências econômicas terríveis e uma depressão global de cinco a sete anos. Mas é muito cedo para prever como será o mundo na era pós-pandemia. Espero que esta crise seja um alerta. Ela nos ensina que temos de enfrentar juntos os desafios globais. As divisões são reais e temos de mudar esta situação. Imagine um futuro vírus que se espalhe tão rápido como o coronavírus e seja tão letal como o ebola. Precisamos encontrar a forma de trabalhar juntos.

Relação dos EUA com a Organização Mundial da Saúde, alegando que a OMS se tornou um fantoche da China. A OMS foi muito permissiva com Pequim nos primeiros dias da pandemia.

Como a OMS, os países e outras entidades reagiram. É claro que essa análise terá de ser feita. Mas o que posso dizer é que conheço as pessoas da OMS e elas não são controladas por nenhum país. Sempre agem de boa fé e para obter a melhor cooperação possível dos Estados membros. Erros podem ter sido cometidos, mas não acredito que a OMS tenha tentado ajudar a China a esconder a realidade. Acredito que a organização queria ter uma boa relação com a China no início da pandemia. Queria garantir que a China cooperasse.

Governos nacionais. Por isso, um de meus objetivos-chave é tornar nossa organização mais ágil e mais eficiente para responder melhor às preocupações, ansiedades e esperanças das pessoas de que nos ocupamos. Mas muitas reformas exigem o consenso dos Estados membros. Isso faz com que o processo seja muito mais lento do que gostaríamos. De qualquer forma, a ONU fez um progresso considerável nos últimos anos. Por exemplo, um dos temas principais da reforma é a paridade de gênero. E agora temos igualdade entre os 180 cargos de direção que existem na organização.

É uma desconexão clara em relação às necessidades da atualidade. Às vezes, temos grandes dificuldades para que o Conselho de Segurança tome as decisões necessárias sobre as crises que enfrentamos hoje. Mas seria injusto ver a ONU apenas como um monstro burocrático. Metade da ajuda humanitária no mundo é canalizada através da ONU. Agora mesmo, durante a pandemia causada pelo coronavírus, estamos ajudando 110 milhões de pessoas em 64 países. Nossa organização forneceu 250 milhões de equipamentos de proteção individual (EPIs) aos países em desenvolvimento. Apenas nas últimas seis semanas, a rede logística da ONU forneceu 69.000 metros cúbicos de suprimentos médicos. Fizemos isso de forma rápida e eficaz. No ano passado, demos alimentos a 87 milhões de pessoas, e metade das vacinas do mundo só está disponível através da ONU.

Paz essencial Não houve grandes confrontos entre as grandes potências nos últimos 75 anos. Isso é algo. Certamente não é mérito apenas das Nações Unidas, mas é inquestionável que a organização tem contribuído significativamente para evitar uma grande guerra.

Multipolar com mecanismos de governança multilateral. A UE deve evitar que se consolide um G2, ou seja, uma ordem global com apenas duas superpotências, EUA e China. Por exemplo, quanto à mudança climática, a UE está liderando uma iniciativa para reduzir suas emissões até 2030. E tenho a esperança de que assim incentive outros atores a fazer o mesmo.

Comissão de Direitos humanos há Estados que não parecem ser muito escrupulosos em relação aos direitos humanos. Como cumprir assim a missão de promover a liberdade e a democracia.

O que constitui um grande desafio é que as relações entre as potências mais importantes, EUA, China e Rússia, estão mais disfuncionais do que nunca. Isso faz com que seja muito difícil para a ONU agir em algumas questões-chave e encontrar um consenso para mobilizar a comunidade internacional.

As estratégias variam muito entre países. A principal razão é essa relação disfuncional entre as grandes potências. Precisamos de uma liderança global, senão não podemos responder de forma eficaz a desafios como os de uma pandemia. No entanto, infelizmente, onde há poder, não há liderança, e onde há liderança, falta poder. Além disso, quando olhamos para as instituições multilaterais, temos de reconhecer que elas não têm dentes. Ou, quando têm, não têm muito apetite. Não querem morder. Esse parece ser o caso do Conselho de Segurança.


FONTE: Brasil Elpais

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