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A política cultural é inexistente no Brasil



Casa no meio da Mata Atlântica, no Rio de Janeiro. O resultado foi o recém-lançado álbum Só, com nove músicas inéditas totalmente escritas, gravadas e produzidas em 43 dias de isolamento. Em formato quase de um diário de quarentena, com as datas e horários anotadas para cada canção, o trabalho vai do samba ao funk, passando por baladas e pitadas de música eletrônica. “O que me inspirou a compor foi a própria quarentena, que me deu uma oportunidade de foco e de ócio criativo.

Bem com o tom lúdico de algumas das letras, como a de Bunda lê lê. Além dele, o cantor e compositor Arthur Nogueira coproduziu Só, que também conta com Leo Chaves, Rafael Rocha (percussão), Bruno Di Lullo (violão e baixo), Bem Gil (guitarra), Zé Manoel (piano) e Chibatinha (guitarrista do grupo baiano Attooxxa). “A experiência de gravar com cada músico em um lugar não é novidade para mim. Posso estar, por exemplo, em Coimbra, dando aula e, ao mesmo tempo, ouvindo uma mixagem que chega de um disco”, diz Adriana, que ministra, de março a maio, o curso Como escrever canções na universidade portuguesa.

Estamos amontoados e sós”, olhando uns aos outros desde janelas, e também, de certa forma mas jamais diretamente sobre o lugar do Brasil no meio da pandemia, com suas muitas crises sociais e políticas. Na faixa O que temos, por exemplo, ela incluiu o barulho de um panelaço contra o presidente Jair Bolsonaro.

Homem da alegria, ele foi um dos maiores representantes da alegria em seu trabalho, nas canções, em sua postura, em sua vida. Eu ouvia e via na televisão o Moraes Moreira desde que eu era adolescente e depois tive a oportunidade de conhecê-lo, não intimamente, mas nos encontramos por coincidência em aeroportos, programas de tevê... E tínhamos um afeto muito profundo, uma identificação. Nós nos gostamos desde a primeira vez que nos vimos pessoalmente. Acho que o fato de ele ter falecido no meio da pandemia, embora não por covid-19, tornou tudo ainda mais triste pela impossibilidade de despedida dele. O Brasil não teve a chance de se despedir do representante da alegria. No momento em que vi isso, essa tristeza, quis dedicar o álbum a ele, pensando nessa ideia oswaldiana de que a alegria é a prova dos nove. É tudo por ele, mas é por isso também.

Foi essa oportunidade que a quarentena dá de foco, de estar em casa, de ter menos interrupções, de não ter que sair, não ter que viajar. Isso propicia, para mim, um ambiente de concentração e ócio criativo. Fora isso, o pano de fundo, as notícias de tudo o que está acontecendo... Eu moro em uma casa no meio da mata e só posso saber do mundo através das notícias. Esse eco do caos do mundo e, ao mesmo tempo, um tempo vazio, de ócio, me deram a possibilidade de me expressar a respeito da situação.

Se não é para sair, eu não fico questionando, não fico me frustrando nem criando armadilhas internas. E quando eu estou em casa, eu adoro estar em casa, com os bichos, com a natureza, com a mata. Eu não estou infeliz de estar aqui. Agora, mesmo que eu não gostasse, estaria me adaptando a essa situação, em vez de me debater. Acho que isso me ajudou a ter uma disciplina para compor. Durante essa época do ano, de março a maio, quando dou aulas de composição em Coimbra, meu cérebro já está condicionado a investigar a feitura, a construção e o alcance das canções. Acho que isso também foi propício para a criação desse álbum.

Não sabia que estava fazendo um álbum, mas no momento em que ficou claro para mim que era uma coletânea de canções da mesma safra, comecei a trabalhar nos arranjos, a ouvir as faixas que chegavam, a trabalhar propriamente na gravação do álbum, e aí esse impulso de composição arrefeceu. Uma vez o disco pronto, as coisas encaminhadas, já voltei a compor. No momento, atendendo a compromissos referentes ao álbum, fazendo algumas lives, ainda não voltei àquele momento totalmente isolada, dentro do estudiozinho, para poder compor uma música por dia. Mas não duvido que isso volte a acontecer, porque, desde que o disco está pronto, já fiz três canções novas.

Você agradece aos profissionais de saúde e a “todos os trabalhadores da linha de frente na guerra contra o vírus da ignorância”. Como avalia a situação do Brasil em meio à pandemia?

Situação do Brasil em meio à pandemia é péssima. Temos as equipes de saúde, os médicos e enfermeiros que estão dando tudo de si para salvar vidas, e a Presidência pedindo para as pessoas saírem às ruas... Não estamos nada bem.


FONTE: Brasil Elpais

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