CONFIRA

Falta de hospitais perto de casa custou a vida



Numa segunda-feira, 20 abril, o motorista de aplicativo e pai de família apresentou os primeiros sintomas da covid-19. Ao longo dos 10 dias seguintes, a febre baixa se tornou alta, ele perdeu o olfato e o paladar, passou a sentir falta de ar e teve infecção urinária e complicações causadas pela diabetes. Quando seu quadro se agravou, os poucos hospitais da região já estavam lotados e ele teve de aguardar uma transferência para a cidade de Volta Redonda, a mais de 130 quilômetros de sua casa. Não deu tempo: morreu no dia 29, uma quarta-feira, aos 51 anos. Ele era casado e tinha filhos, duas netas e um neto. “Foi tudo muito rápido, ainda estou tentando assimilar. Todo dia fico pensado se poderia ter feito diferente, ter buscado um hospital maior" conta a esteticista e cabeleireira Cileide Gomes da Silva, 50, viúva de Gilmar. Ela teve os sintomas do coronavírus junto com o marido, mas, após mais de 15 dias de isolamento em casa, já estava melhor.

Pantanal, em Duque de Caxias, município da região metropolitana do Rio de Janeiro com cerca de 920.000 habitantes.Trata-se da segunda cidade do Estado do Rio de Janeiro com o maior número de óbitos confirmados por coronavírus, atrás apenas da capital fluminense. Até o dia 26 de maio eram 1.953 casos e 187 mortes registradas.

Para chegar até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima é preciso percorrer alguns quilômetros de carro ou de ônibus —e, neste caso, ainda percorrer uma passarela para cruzar a rodovia Washington Luís. Uma distância impossível de vencer a pé. Na região, há também poucos hospitais que realizam internação de casos graves de infecções respiratórias, sendo os principais deles o Hospital Municipal Dr. Moacyr Rodrigues do Carmo e o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes Saracuruna. “Na quinta-feira [23 de abril] pegamos um carro e fomos ao Moacyr. Uma doutora para quem ele fazia corrida ligou pedindo para ele ir nesse dia. Ele ficou na UPA ao lado do hospital, que estava lotado. Fizeram exames e viram que ele tinha uma infecção urinária e a diabetes descompensada, e a febre muito alta”, conta Cileide. Poucos dias depois da morte de seu marido, a Prefeitura inaugurou o Hospital São José, exclusivo para o tratamento da covid-19 no município.

20 maiores cidades do Brasil, entre elas Duque de Caxias. Constatou que um total 228.000 pessoas com o mesmo perfil de Gilmar —isto é, acima de 50 anos e de baixa renda— não poderiam, por causa da distância, caminhar por menos de 30 minutos até uma unidade de saúde do SUS que faz triagem e encaminha os casos suspeitos de covid-19 a hospitais. Além disso, 1,6 milhão de pessoas com esse mesmo perfil moram a mais de cinco quilômetros de um hospital com capacidade de internar pacientes em estado grave de insuficiência respiratória com suspeita de coronavírus.

SUS poderia ter salvado a vida de Gilmar. Na quinta-feira de 23 de abril, após a primeira ida com Gilmar para a UPA, os médicos mandaram a família de volta para casa. Ele retornou na sexta para o lugar e, diante do agravamento de seu quadro, permaneceu internado até domingo com o auxílio de oxigênio. Com sua melhora, retornou mais uma vez para casa. Mas às 6h40 da manhã de segunda-feira, ele já estava mais uma vez no centro médico. Só então pediram uma tomografia. “Fizeram às 8h da manhã, mas o resultado só saiu às 19h. Enquanto isso ele ficou sem comer, esperando em uma cadeira de rodas de ferro. Somente às 22h é que consegui interná-lo. Ele ficou na UPA mesmo, no corredor da sala amarela”, narra a viúva. Ele não chegou a fazer o teste para detectar a covid-19, mas a tomografia apontava para a existência de características da infecção pelo novo vírus, acrescenta ela.

Com o hospital ao lado também lotado, sem leitos para a internação, ele precisou aguardar ser transferido para um de Volta Redonda. Na quarta-feira, ele faleceu. “Se ele tivesse sido internado segunda-feira cedo... Mas o sistema é muito lento”, lamenta Cileide. “Deixei ele lá na segunda e não vi mais. Procuro não me culpar, mas me pergunto por que não busquei um hospital maior. Hoje eu não levaria para lá”.


FONTE: Brasil Elpais

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