CONFIRA

Busca por uma UTI para Ivanildo Vieira



Havia passado por uma longa noite mal dormida, com fortes dores no corpo, tosse e febre. Estava tão cansado que não conseguiu cuidar dos dois cavalos que cria num terreno próximo de sua casa no Bom Jardim, um dos bairros mais vulneráveis da periferia de Fortaleza, nem visitar os clientes para os quais fabricava próteses dentárias populares, como costumava fazer inclusive nos fins de semana. Naquele dia, tudo o que conseguiu fazer foi tomar um banho antes de ser levado por um dos seus três filhos até uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde já havia sido examinado e liberado no dia anterior. Com suspeita da covid-19, Seu Ivanildo, como é conhecido no bairro, precisou ficar internado porque, além da dificuldade para respirar que passou a apresentar, tinha duas condições complicadoras para a doença: hipertensão e diabetes.

Fôlego até ter um tubo enfiado na garganta para ajudá-lo a respirar. Entrou oficialmente na fila por um leito de UTI. Sem respostas dos órgãos oficiais quando Fortaleza já tem 97% dos leitos ocupados e o Ceará já soma 13.888 casos da doença, a família de Ivanildo precisou montar uma operação particular de guerra para que ele tivesse uma estrutura fundamental para superar a fase mais aguda da doença. Durante vários dias, pediu socorro ao SUS, peregrinou por uma vaga em vários hospitais privados, foi à Justiça. Mas, no último domingo, Ivanildo morreu antes de conseguir um leito de UTI.

Ela acompanhou o marido e os cunhados todas as tardes na UPA do Bom Jardim. Dividiu a angústia de sua família com a de outros parentes de internados, que faziam fila para saber alguma informação sobre seu estado de saúde, nem sempre com detalhes. Até o segundo dia de internação de Ivanildo, Leidiane ainda conseguiu ligar para o celular dele e, numa tentativa de animá-lo, contar que toda a família aguardava ansiosa pela sua cura. Foi a última vez que se falaram, porque a partir daí ele já não pôde mais atender as ligações e as visitas estavam proibidas por conta do elevado risco de contágio do coronavírus. Quando o quadro de saúde do sogro piorou, Leidiane se viu imersa com o marido e os cunhados em uma saga até então inimaginável para a família: a luta pelo leito especializado que os médicos haviam recomendado no prontuário, mas não saía.

Quando há indicação nas UPAs para internação em UTI, o paciente é registrado na Central de Regulação de Leitos do Município, que determina para onde ele deve ser encaminhado. Fortaleza tem, ao todo, 337 leitos de terapia intensiva em funcionamento para o atendimento de pessoas com a covid-19 na rede pública, distribuídos em 10 hospitais, sendo um deles o hospital de campanha levantado em um estádio de futebol para enfrentar a crise. Sete desses hospitais estão completamente ocupados e os demais têm taxa de ocupação superior a 93% na terapia intensiva.

Situação de “exaustão da capacidade assistencial de saúde” em relatórios apresentados à imprensa, eles projetam que mesmo com o esforço em seguir esse ritmo de criação de novos leitos o “colapso” chegará no final de maio, caso a velocidade de contágio permaneça a mesma. Segundo o Governo do Estado, a demanda por um leito de enfermaria ou UTI cresceu 400% entre os dias 2 de abril e 5 de maio. “Hoje, 800 leitos de enfermarias, 621 leitos de UTI e 419 ventiladores mecânicos estão sendo utilizados por pacientes com suspeita ou confirmação da covid-19 no SUS e na rede privada do Estado”, informa um boletim epidemiológico do Ceará. Para tentar distribuir a demanda em um maior espaço de tempo, Fortaleza (que concentra a maioria dos casos do Estado) bloqueou entradas e saídas da cidade e restringiu a circulação de pessoas e veículos no espaço público.

UPA para um hospital que demorava em média 24 horas ou 48 horas antes da pandemia agora pode até ficar sem solução, como aconteceu com Ivanildo. Nem a Prefeitura de Fortaleza nem o Governo do Estado dizem qual é o tamanho atual da fila por uma UTI capaz de receber pacientes com a covid-19. Também não detalham quais são exatamente os critérios que definem quem tem prioridade quando não há leitos para todos os que o necessitam. A Prefeitura de Fortaleza diz apenas que a distribuição dessas estruturas “leva em conta o quadro clínico do paciente e sua estabilidade para o traslado”. Também não comenta especificamente o caso de Ivanildo.

Com os registros médicos na UPA do Bom Jardim para pedir socorro à Justiça. Leidiane conta que o pedido só foi feito na véspera da morte de Ivanildo por conta da demora para conseguir toda a documentação e que, na manhã seguinte, a advogada que contrataram lhe contou que havia sido negado. Há dias, a família já apelava também aos hospitais privados. “Cada hora que passava, a gente sentia que era uma hora a menos que ele tinha”, conta.


FONTE: Brasil Elpais

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