CONFIRA

A volta para casa depois de 10 dias


Gustavo Scholz, 55, fala com a voz bem rouca, como se fumasse há décadas. Mas não é o caso. “A voz fica assim porque a traqueia fica machucada depois de tanto tempo de entubação”, explica, logo no início da entrevista. A reportagem propõe então um combinado: caso ele fique cansado de falar, o que pode ocorrer devido ao pulmão ainda debilitado, a conversa será encerrada e retomada depois. Mas não foi preciso. Scholz falou por mais de meia hora sobre como foi ficar dez dias entubado na UTI de um hospital particular de Curitiba, onde foi tratado do coronavírus. Curado, deixou o hospital aplaudido pelos médicos, uma cena que, felizmente, também vem se repetindo ao redor do mundo. “Quem tem que bater palma somos nós, cidadãos e pacientes”, diz. “Eu não tenho palavras para agradecê-los”. Scholz é um dos 35.935 pacientes considerados recuperados da covid-19 até o momento no Brasil, ou 42% dos casos que já confirmados da doença.

Scholz narra que os sintomas chegaram de forma quase silenciosa. Ao longo de cinco dias, a única coisa que sentia era febre. “Você não sente falta de ar de uma hora para a outra”, diz. "Pode ter sido isso que tenha me enganado, porque eu não tinha tosse, só tinha febre”. Porém, na terceira ida ao hospital se queixando de febre incessante, um novo sintoma acendeu o alerta. “Percebi que, ao sair do estacionamento e subir a rampa até a recepção do hospital, tive que sentar, porque fiquei cansado, com falta de ar”. Sem saber exatamente o que tinha, o engenheiro foi internado e entubado imediatamente. “Não pude nem me despedir dele”, conta a esposa, a bancária Célia Deina Shcolz, 49.

Recebemos muitas mensagens, correntes de orações e de várias crenças, de reiki [envio de energias por meio das mãos] a cerimônias xamânicas”, conta a esposa. “Formou-se uma corrente, muita gente se ofereceu par ir ao mercado, à farmácia, trouxeram sopa. Sentimos a solidariedade e o carinho de todos os lados”, diz ela. Scholz reconhece que, desacordado no hospital, o sofrimento maior estava em casa. “Como a gente fica em um mundo paralelo, quem fica na angústia são os familiares”, afirma. “Por isso, eu sei que o apoio dos amigos foi fundamental. De repente você começa a perceber que para alguém você é importante, e para a família isso é muito reconfortante.

Com mais de 5.000 mortes notificadas em decorrência do coronavírus no Brasil, é muito difícil não pensar no pior. “Ocorreu um óbito na mesma UTI em que o Gustavo estava internado, por isso passavam milhões de coisas na minha cabeça”, conta a esposa. “Eu procurava me manter forte, mas às vezes, quando eu me deitava, batia um aperto no peito difícil de explicar e eu chorava escondida para meus filhos não verem”. A sensação, conta a esposa, é de estar com as mãos atadas. “Fisicamente a gente não pode fazer muita coisa”, diz. “Mas temos que manter a crença que vai terminar tudo bem. Tem que acreditar, porque se desanimar, tudo desanda.


FONTE: Brasil Elpais

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