CONFIRA

À caça de um novo foco de coronavírus



Pedro Simón teve uma ideia alarmante. Uma revista científica dizia que os doentes de covid-19 não só expulsam o vírus pelas vias respiratórias como também pelo intestino, de forma que suas fezes contêm restos do vírus, inclusive semanas depois de a pessoa ter se recuperado. Todo esse RNA viral estaria viajando pelo esgoto até confluir em um ponto: as centrais de tratamento de águas fecais. Estariam em perigo os trabalhadores? Seria possível que as águas depuradas, reutilizadas para irrigação, estivessem cheias de vírus.

Águas Residuais de Múrcia (sudeste da Espanha), demorou alguns dias até obter as autorizações para fazer os experimentos necessários. Em 12 de março, quando a região de Múrcia contava com apenas algumas dezenas de casos de covid-19, começaram a fazer exames PCR em amostras de águas fecais que chegavam às suas principais centrais de tratamento. Fizeram isso até 14 de abril.

Centrais contêm RNA do SARS-CoV-2, mas as que saem já depuradas estão completamente limpas. Embora não tenham sido feitos testes de viabilidade, é “improvável” que o RNA viral que resta nas águas fecais seja de vírus com capacidade de infectar, apenas fragmentos incapazes de causar a doença. Então Simón passou do alarme à dúvida: e se o RNA do vírus nos esgotos servisse de alerta precoce para possíveis surtos.

Simón em colaboração com cientistas do CSIC (agência espanhola de pesquisa científica) e da Universidade de Valência revela que o vírus já estava ali dias antes que a epidemia generalizada começasse. Em três municípios murcianos – Lorca, Cieza e Totana – o RNA viral aparecia nas águas fecais até 16 dias antes de as autoridades sanitárias terem confirmado o primeiro contágio.

Amostras retrospectivas de águas residuais da cidade de Valência (leste da Espanha) e seus municípios vizinhos, colhidas dias antes da epidemia e conservadas em geladeiras a 4 graus, e outras tomadas semanas depois do seu início. Também nesse, era possível detectar o vírus antes do primeiro contágio, embora só por um dia, 24 e 25 de fevereiro, respectivamente.

Os infectados expelem fragmentos de vírus nas fezes até 42 dias depois da infecção”, diz Gloria Sánchez, do Instituto da Agroquímica e Tecnologia de Alimentos (IATA-CSIC) e coordenadora do trabalho. Sua equipe há anos vem analisando a presença de vírus em alimentos e águas.

Colhidas em várias centrais de tratamento de águas fecais. A concentração de vírus em águas não tratadas aumentou rapidamente a partir de 24 de fevereiro, até alcançar seu máximo em 9 de março ― com entre 100.000 e um milhão de fragmentos de RNA viral em cada litro de água e se manteve assim até o final do período de estudo. O mais interessante é que o pico de concentração de vírus ocorreu 15 dias antes do pico de contágios diários. “Acreditamos que este sistema pode funcionar como alerta precoce frente a um possível segundo surto dentro de alguns meses; não seria uma substituição das medidas de vigilância epidemiológicas já estabelecidas, como os exames maciços, e sim algo complementar”, ressalta a cientista.

Está acontecendo na população”, acrescenta Pilar Domingo-Calap, virologista da Universidade de Valência e outra das principais autoras do estudo nessa cidade. “Com a chegada do verão, pode ser que o nível de vírus caia, mas é possível que depois volte a subir, e poderíamos detectar isso”, explica.

Infectados levam 10 dias para começarem a expelir RNA viral nas fezes. Isto significa que o hipotético alerta surgiria quando o vírus já estiver circulando durante esse tempo, o que não é o ideal, mas pode ser antes que os primeiros casos cheguem aos hospitais. Também quer dizer que em Múrcia o vírus já estaria circulando no começo de março, e em Valência em meados de fevereiro, o que coincide com o observado nos genomas de vírus isolados em pacientes.

Foram publicados em um servidor aberto e ainda não foram revisados por especialistas, embora seus responsáveis já os tenham enviado a revistas científicas. Representam uma forma de analisar a circulação viral graças às centrais que depuram a água de 1,2 milhão de habitantes em Valência e mais de meio milhão em Múrcia. São resultados semelhantes aos obtidos na Holanda, o primeiro país a ter feito este tipo de análise no começo de fevereiro. Ali o vírus estava na água residual em 5 de março, dias antes da confirmação do primeiro caso em algumas localidades.

Não só os casos clínicos que estão internados, mas também os leves e assintomáticos”, opina Albert Bosch, virologista da Universidade de Barcelona. Sua equipe está fazendo análises nas centrais de tratamento que atendem à capital catalã. “Chegamos a ver picos de 10.000 cópias do RNA por litro, e agora vemos uma queda acentuada, para 1.000 ou inclusive apenas centenas. A grande pergunta é o que vai acontecer a partir de agora à medida que as medidas de restrição vão sendo suspensas”, diz. O pesquisador quer lançar uma rede de vigilância da água dos esgotos que inclua dados da Catalunha, Madri, Múrcia, Valência, Extremadura e Galícia.


FONTE: Brasil Elpais

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