CONFIRA

Paciente fechou os olhos sem saber


Imaginava o que começaria a enfrentar poucas semanas depois, que ignorava que àquela altura a epidemia já se espalhava como pólvora, enquanto autoridades vigiavam algumas dezenas de casos com a crença de que tudo estava sob controle. Abriu-os, quase dois meses depois, sem saber onde estava nem o que tinha lhe acontecido. Após 57 dias sob cuidados intensivos, na quarta-feira voltou para o quarto; foi um dos primeiros pacientes de covid-19 a necessitar de UTI na Espanha, e o que mais tempo passou ali por culpa do vírus SARS-CoV-2.

Terapia intensiva do hospital de Torrejón, na região de Madri, é a história de como a doença avançou pelo país: do desconhecimento inicial às incertezas posteriores e os tratamentos experimentais; do drama das famílias dos doentes e dos raios de esperança, que também aparecem na maior crise sanitária em um século.

Aqueles países, conforme relata Sergio, um de seus cinco filhos. Em 19 de fevereiro, quando começou a se sentir mal com sintomas parecidos com os de uma gripe, não lhe passou pela cabeça que pudesse ter a doença. Tampouco a sua médica de cabeceira, que, após auscultá-lo por alguns dias depois e notar problemas na respiração, mandou-o ao hospital para que lhe fizessem uma radiografia dos pulmões. O diagnóstico: uma fase inicial de pneumonia. Antibióticos, e para casa.

Dois dias depois, quase não se aguentava em pé, então sua família decidiu levá-lo ao hospital. Tinha perdido muito a capacidade respiratória. Deixaram-no de observação na noite de 26 de fevereiro, e na manhã seguinte decidiram entubá-lo. Sua vida corria grave perigo.

Quando o entubaram, achamos que seria por alguns dias, uma ajuda para a sua respiração, mas nunca imaginamos que pudesse passar tanto tempo. É um processo complicado que o confinamento agrava, porque somos uma família numerosa que passa muito tempo junta. [A quarentena] nos impediu de nos vermos ou de irmos fazer companhia para a minha mãe, que ficou péssima”, prossegue. Segundo o Ministério da Saúde da Espanha, os pacientes de coronavírus que necessitam de UTI costumam passar em média entre 20 e 28 dias nessa ala. “É muito raro que alguém fique menos de 10”, explica Gabriel Heras, membro da equipe que atendeu Julio.

Humanização da Terapia Intensiva, e o hospital de Torrejón é um dos poucos que permitem aos familiares visitar os pacientes, de modo que Yolanda, a esposa de Julio, passou todas as tardes junto ao seu marido desde que ele foi internado. “Se aceitarmos que os pacientes sofram e morram sozinhos porque não temos um EPI [equipamento de proteção individual], temos que refletir sobre o tipo de sociedade que somos”, afirma este médico, que admite ter estado prestes a jogar a toalha depois de um mês sem melhora, e que chegou a informar à família de Julio que muito provavelmente ele não se recuperaria.

Hospital era o SARS-CoV-2, um vírus que, quando ele foi internado, nem sequer tinha recebido este nome oficial (durante as primeiras semanas, foi provisoriamente chamado de NCoV-2019). Em pouco mais de uma semana, a que tinha passado desde os primeiros sintomas até dar entrada na UTI, tudo o que se sabia da epidemia evolui a um ritmo vertiginoso. Começava-se a suspeitar que podia estar mais espalhada do que se pensava, e todos os internados com pneumonias graves passaram a ser submetidos a exames. Embora tudo indicasse àquela altura que o caso de Julio havia sido causado pelo coronavírus, deu negativo nos dois primeiros testes. Mas a pneumonia bilateral e os sintomas eram tão similares que a direção médica decidiu insistir. Colheu-se uma amostra das profundezas dos pulmões, e lá estava o agente patogênico que deixou o mundo de pernas para o ar.

Fatores que costumam estar associados à maioria de casos mortais de coronavírus. Além de ser homem e maior de 60 anos, sofria de doença pulmonar obstrutiva crônica, fruto de muitos anos de tabaco, embora esteja há oito sem fumar. Também sofria de hipertensão e tomava medicação para combatê-la. É um homem corpulento. Ou pelo menos era antes que os quase dois meses na UTI o consumissem. Quase 100 quilos que tornavam complicadas todas as movimentações.

Desde o início da doença, nada parecia lhe fazer tão bem como a pronação. Passar 17 horas por dia de bruços melhorava sua ventilação. Mas os dias de respirador mecânico foram passando a fatura aos seus pulmões, que estavam cada vez mais rígidos por causa da pressão a que a máquina os submete. “Era muito frustrante”, relata Heras, um de seus médicos. “Quando colocamos o ventilador, a ideia é tirá-lo quanto antes, mas não avançava nada. Zero. Por sorte, outros órgãos não tinham sido afetados, do contrário, muito provavelmente não teria saído com vida”, conta.


FONTE: Brasil Elpais

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