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Opera a máfia que não para durante a pandemia


Um barco na Calábria com 600 quilos de coca. Um fugitivo capturado depois de uma longa fuga quando ia fazer compras usando máscara e luvas. Ninharias em comparação com o ritmo normal. Mas a principal atividade dos clãs mafiosos na Itália hoje em dia é se reposicionar, ganhar apoio e buscar novas formas de usar seu dinheiro, que retornará em abundância quando a crise sanitária acabar. Na Calábria e na Sicília, a polícia já surpreendeu mafiosos distribuindo sacolas de compras para alguns moradores. Enquanto não chegar a ajuda anunciada pelo Governo de Giuseppe Conte, as máfias se infiltrarão no tecido social, concordam as fontes judiciais e policiais consultadas. Também são abundantes os empréstimos a empresários com a corda no pescoço que precisam de dinheiro vivo. “Agora são só facilidades”, assinala um comandante dos carabinieri em Trapani. Os clãs têm liquidez. Quando a crise passar, vão cobrar a conta.

Euros (245 bilhões de reais) anuais −, teme o pior: “O objetivo da elite da ‘Ndrangheta não é só enriquecer, mas exercer o poder. No sul há milhares de pessoas que sempre trabalharam na informalidade e ganhavam no máximo 40 euros [228 reais] por dia. Esse dinheiro evaporou. O Estado está preparando uma injeção que chegará em poucos dias, mas muitas pessoas necessitadas aceitam encantadas as compras pagas pelo chefão da vez. Aceitam também ajudas de 300 ou 400 euros [1.710 ou 2.280 reais]. Para eles não é nada, para o pobre é tudo. Daí surge o modelo do homem poderoso, que poderá pedir que votem em seu candidato quando houver eleições”. É hora de semear.

Gabrielli, e o procurador-geral antimáfia do país, Federico Cafiero de Raho. A crise acaba com o dinheiro em espécie, algo que organizações como a ‘Ndrangheta, cuja principal fonte de renda é o tráfico de drogas, têm em abundância, lembra Gratteri. “[Essas organizações] buscarão emprestar dinheiro com usura a empresários. A juros baixos, para competir com os bancos. As pessoas − hoteleiros, donos de restaurante − vão procurá-las. O objetivo do agiota mafioso é se apoderar dessa atividade comercial quando, pouco a pouco, forem aumentando os juros até o empresário não conseguir pagar. Depois que o negócio for roubado, o mafioso o usará para lavar dinheiro. É assim que funciona. Este período servirá para isso”, acrescenta o procurador.

Clãs devoram o território. As três regiões estão no topo das estatísticas de pobreza e de economia informal, com cifras em torno de 20% de sua riqueza, segundo o Instituto de Estatística Italiano (Istat). São milhares de famílias sem nenhuma provisão neste momento. O Governo prometeu 400 milhões de euros (2,3 bilhões de reais) aos municípios para a concessão de vouchers, mas o sistema é lento e a burocracia, fatal para o tecido social. Em Palermo e Nápoles, multiplicam-se as denúncias de assaltos a supermercados.

Fundação San Gennaro, organizaram-se para distribuir alimentos a famílias necessitadas em Nápoles. É outra forma de evitar a infiltração de clãs mafiosos. Davide Marotta faz parte do esquadrão que distribui 350 pacotes de comida semanais e vales-compra no bairro napolitano de Sanità. “Quem recebe ajuda, muitas vezes, não pensa se vem de alguém que mata ou vende drogas. Fome é fome. Nápoles já estava cheia de problemas antes do coronavírus. O Estado está ausente nessas áreas, e muitas vezes a Camorra o substitui. O único mercado que não para é o ilegal. E é usado o velho método do clientelismo político. O que nós fazemos é ocupar esse espaço”, diz Marotta, por telefone, no único dia de descanso dos voluntários.

Chegando às ruas de sua cidade, resume assim,Quando você está doente e o médico não chega, acaba indo ao curandeiro. Devemos evitar que esses falsos médicos batam à porta. Os mafiosos estão alimentando o mal-estar social para transformar aos novos pobres em transportadores de drogas, escravos. Só o dinheiro público é a alternativa ao dinheiro mafioso. E isso vale em toda a Itália, também no norte”. E hoje tudo acontece às escuras.

Neste momento, os pontos de escuta, os lugares onde foram instalados microfones [pela polícia], os esconderijos, já não estão dando muitos frutos, porque não são frequentados. Os carros estão parados, e nas residências, estando em família, nem sempre é possível obter informações, porque há mais barulho e as conversas são de outro tipo. Quanto menor o movimento, menos visíveis são os encontros e menos informações obtemos”, diz ele. Um comandante policial especialista no combate à Cosa Nostra assinala: “É mais difícil para todos: para eles, que dão cobertura e logística para a distribuição de drogas, e para nós, que devemos segui-los e não podemos nos camuflar entre os carros e as pessoas”.


FONTE: Basil Elpais

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