Clique abaixo para manter o site online

Moro salva o que resta da biografia


Abandonava uma carreira de 22 anos na magistratura e uma fama de pop star da Justiça após levar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão para se tornar o primeiro ministro a tomar posse no novo Governo do presidente Jair Bolsonaro. Assumia o Ministério da Justiça e Segurança Pública para alegria de quem endossava o presidente ultradireitista, e decepção de quem via oportunismo e contradição nesse casamento. Mas Moro arriscou, e prometeu colocar em prática o discurso anticrime organizado e anticorrupção.

Moro saiu fazendo graves acusações ao presidente Bolsonaro por querer interferir nos rumos da Polícia Federal, exonerando, à revelia do ministro, o diretor geral da corporação, Maurício Valeixo. Foi a gota d’água para o rompimento definitivo com o ex-juiz. E o ponto final de uma aventura que chocou o mundo e tirou muito do brilho de outrora herói anticorrupção. “Ao menos resta um pouco de dignidade”, diz um interlocutor privilegiado que já atuou perto de Moro e se decepcionou com sua adesão a um Governo que tinha telhado de vidro antes mesmo de começar. “Está salvando a sua biografia. Ali dentro ele se apequenava e, por consequência, apequenava o legado da Lava Jato”, observa.

Reputação popular que fez sombra aos maiores titãs políticos até então. Soube se relacionar com a mídia e catalisar o anseio dos brasileiros por mais justiça e menos corrupção. Ao levar empresários e políticos para a cadeia e seu maior troféu, o ex-presidente Lula ganhou o amor eterno da maioria da população. Ainda tem 53% de percepção positiva no Brasil, mais do que Bolsonaro (39%). No meio jurídico, porém, sua fama perdia espaço à medida que atropelava ritos jurídicos para alcançar os resultados, viciado, segundo juristas, para atingir o governo do PT e suas pretensões de se manter no poder. O Estado de Direito foi atingido pelo modus operandi de Moro, e sua biografia ficou manchada, ainda mais depois de aceitar o convite de Bolsonaro, arqui-inimigo político do principal alvo do ex-juiz da Lava Jato.

Alternativa para tentar evitar uma crise política durante a pandemia, mas entendi que eu não podia, aí, deixar de lado esse meu compromisso com o Estado de Direito”, apontou o ministro. Outra ironia apareceu na despedida de Moro. Teve de reconhecer que durante a operação Lava Jato a Polícia Federal nunca sofreu interferência ou pressão direta dos presidentes petistas que foram escrutinados por ela. “Imagina se durante a própria Lava Jato a então presidente Dilma e o ex-presidente Luiz [Lula] ficassem ligando para as autoridades para obter informações?”, disse ele. “Moro fez justiça nesse momento”, diz o ex-ministro José Eduardo Cardozo, que ocupou a pasta da Justiça durante o Governo Dilma.

The Intercept que expuseram a comunicação entre magistrado e Procuradoria-Geral fora dos autos, o que é proibido por lei. “Isso abalou a credibilidade dele. Parte dos apoiadores liberais o abandonou depois da Vaza Jato”, diz o professor e pesquisador Christian Lynch, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ. “Quanto mais tempo passava no ministério, mais força o Moro perdia.” O juiz espanhol Baltazar Garzón não escondeu seu espanto quando tomou conhecimento. “A partir do momento em que há essa interconexão [entre juiz que sentencia e quem investiga], a credibilidade sobre a imparcialidade se perde”, disse Garzón em entrevista ao EL PAÍS.

Era natural que, cedo ou tarde, a convivência entre esses dois setores distintos se tornaria incompatível.” Segundo Lynch, a relação entre Moro e Bolsonaro era “um casamento de conveniência”, ditado pelo desejo do ex-juiz em se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal. “A pandemia levou à deterioração precoce do Governo e ajudou a desfazer o casamento. Celso de Mello [ministro do STF] só se aposenta no fim do ano. Moro teria de se aguentar até lá, mas o timing não coincidiu, porque agora Bolsonaro enxergou a necessidade de ter mais controle sobre a PF. Se ficasse mais um minuto, Moro correria um risco ainda maior de comprometer a imagem pública que moldou na Lava Jato.

Bolsonaro para embarcar em seu Governo. No entanto, em contra-ataque no fim da tarde, o presidente contou que o ex-juiz teria proposto aceitar a demissão de Valeixo depois da indicação ao Supremo, em novembro. Moro reagiu. “A permanência do diretor geral da PF, Maurício Valeixo, nunca foi utilizada como moeda de troca para minha nomeação para o STF. Aliás, se fosse esse o meu objetivo, teria concordado ontem com a substituição”, rebateu Moro em seu perfil no Twitter. À noite, o Jornal Nacional exibiu as conversas por Whatsapp com a deputada Carla Zambelli, aliada de todas as horas do presidente, em que ela pede para que ele ficasse no Governo, prometendo-lhe que convenceria o presidente a indicá-lo ao STF. “Não estou à venda”, respondeu Moro.

Rio de Janeiro, em queda de braço vencida por Moro e Valeixo na esteira das investigações do senador Flávio Bolsonaro por suspeita de rachadinha. Porém, em que pese a alegação de interferência na PF, o ex-juiz, como revelado pela Folha de S. Paulo, em julho, teria entregado ao presidente uma cópia do inquérito que corria em segredo de justiça sobre a investigação de candidaturas laranjas pelo seu antigo partido, o PSL. “Ele mandou a cópia do que foi investigado pela Polícia Federal pra mim”, confidenciou Bolsonaro a jornalistas durante visita ao Japão. Moro também fez vista grossa à decisão do presidente de tirar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do guardachuva de seu ministério, até então tido por ele como essencial no combate à corrupção, e transferi-lo para o Banco Central. O órgão foi responsável por identificar as transações suspeitas entre o motorista Fabrício Queiroz e familiares de Bolsonaro.



FONTE: Brasil Elpais

Postar um comentário

0 Comentários