CONFIRA

Margareth Dalcolmo O isolamento social


Combate à doença no Brasil. Atende a pacientes com a Covid-19 e participa do grupo de especialistas consultados pelo Ministério da Saúde para coordenar medidas para o enfrentamento da pandemia. Se num primeiro momento as autoridades de saúde chegaram a apostar que, no Brasil, a doença entraria com menos força por conta do clima e de suas características demográficas ―com a proporção menor de idosos que a Europa a médica acredita que a doença rejuvenescerá no país por essa mesma característica populacional.

Mesmas condições de frear o contágio. Dalcomo defende um distanciamento social mais severo nas próximas semanas como medida fundamental para que o Sistema Único de Saúde (SUS), que atende a maior parte da população, consiga ampliar seus leitos de UTI.O problema é se vai dar tempo de tudo isso estar operando nos próximos 30 dias, período em que a epidemia só vai crescer”, diz. Até este domingo, 12 de abril, o Brasil somava 22.169 pessoas infectadas o dobro do registrado há uma semana, e 1.223 mortes por Covid-19.

Grandes concentrações urbanas brasileiras, o que não é diferente daquilo que foi esperado epidemiologicamente. E as medidas que estão sendo tomadas pelas autoridades sanitárias brasileiras, não de modo homogêneo como nós gostaríamos, mas de modo heterogêneo, em relação ao isolamento social. As medidas estão corretas. Como membro do grupo de especialistas que apoia o Ministério da Saúde, eu digo isso. As medidas de contenção da epidemia através do isolamento social, proposto de maneira bastante severa nessas semanas e ainda durante todo o mês de abril, são a nosso juízo a arma maior que o Brasil tem no sentido de conter a epidemia. A segunda arma importante que o Brasil tem é uma coisa preciosa chamada SUS, que é quem vai dar a resposta para a grande maioria da demanda que vai ocorrer seguramente.

40% de brasileiros que são da economia informal, que seguramente vão sofrer porque são pessoas que vivem da mão pra boca, que trabalham naquele dia para levar o alimento e os subsídios elementares para a sua família. Então isso é um problema que exige do Governo e da iniciativa privada uma colaboração, no sentido de assistir essas populações do Brasil. O grande desafio hoje é como diminuir o impacto não apenas da transmissão da doença, mas também do impacto social e econômico que ela pode gerar nessas populações mais desassistidas. O segundo problema são as condições de trabalho dos profissionais de saúde, que atendem a essa grande população. Hoje estamos tendo problemas logísticos. As iniciativas estão sendo tomadas, mas precisamos correr contra o tempo para a chegada de EPIs [equipamentos de proteção individual] para as pessoas trabalharem. Também precisamos de mudanças de comportamento, como o uso de máscaras pelas pessoas para se locomover. São dinâmicas que a evolução da epidemia exigem.

Não temos um percentual de idosos que tem a Itália ou a Espanha. A nossa distribuição de população, embora tenhamos já cerca de 10% a 11% da população acima de 60 anos, temos uma grande concentração de jovens. Então é natural que a doença se distribua majoritariamente entre jovens. Então é ilusão de que jovens estariam mais protegidos. A distribuição demográfica no Brasil dará à doença características brasileiras. Além disso, o vírus já sofreu mutações e já se adaptou ao Brasil. Cientistas estudaram 20 genomas diferentes, de cinco Estados brasileiros, e mostraram que o vírus já sofreu mutações. Isso não muda nada em termos de patogenicidade do vírus, porém dá a ele características de adaptação.

Nesse momento, estou tratando várias pessoas com a Covid-19, mais ou menos com a mesma idade, e está todo mundo em casa. Ninguém está internado. Eles estão com pneumonia, pela tomografia. Eles têm teste positivo e estão doentes, mas não estão graves e ficarão curados. Então se espera uma evolução de 14 a 21 dias para que a gente libere o doente e possa considerá-lo curado. Mas uma mensagem que eu tenho tentado passar é que não há invencíveis para o Sar-Cov-2. Todos somos vulneráveis. No Brasil, seguramente a doença vai atingir populações mais jovens. Se você for medir a média de idade dos pacientes internados em São Paulo ou no Rio de Janeiro, ela não é de pacientes de 80 anos. Ela é bem mais jovem.

Até onde nós sabemos, ele não é melhor nem pior. Ele apenas sofre mutação porque é altamente mutável. Certamente sabemos que o vírus chinês é diferente do que foi para a Itália. Lá, ele também sofreu mutação. O vírus que chegou ao Brasil não foi da China, foi da Europa. O caso número um veio da Itália e, naquele momento, ele se assemelhava ao genoma do vírus alemão. Era europeu, claramente. O fato de ter sofrido mutação no Brasil não quer dizer que seja mais ou menos patogênico. Ou seja, a capacidade dele causar doença e se distribuir da mesma maneira que já sabemos 80% de forma leve e 20% de forma mais grave, dos quais 50% vão para o CTI [centro de terapia intensiva parece estar mantido no Brasil até o momento. A proporcionalidade já conhecida dos casos parece estar mantida. Se vai ter maior proporção de casos graves que na Europa, acho difícil. Aqui vai ter mortalidade, não há dúvida. Não temos nenhuma ilusão.


FONTE: Brasil Elpais

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