CONFIRA

Ameaça para os povos da Amazônia


Segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). “Exigimos que os Governos de cada um dos nossos países reconheçam de maneira pública sua responsabilidade em relação aos povos e nacionalidades indígenas como populações especialmente vulneráveis à pandemia, e que sejam tomadas todas as medidas necessárias, culturalmente apropriadas e efetivas para proteger nossas comunidades e territórios. Em caso de ação contrária ou omissão, pedimos à comunidade internacional que se mantenha em alerta máximo pelo possível cometimento de um ato genocida”, afirma a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA, na sigla em espanhol) em um comunicado publicado em 31 de março.

Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Os povos originários destes países enfrentam agora um duplo problema: primeiro, a sua falta de imunidade diante deste novo vírus. O segundo é menos midiático, mas evidente para quem o sofre: a intensificação da atividade ilegal de garimpeiros e madeireiros aproveitando que as atenções estão completamente voltadas pela pandemia.

Amazônia, porque estão nos ignorando”, declara José Gregorio Díaz Mirabal, membro do povo Wakuenai Kurripako, originário da Amazônia venezuelana, e coordenador-geral da COICA. Em toda a região amazônica, incluindo seus diversos países, há um total de 7.780 casos confirmados e 395 mortos, de acordo com o mapa atualizado em 21 de abril pela Rede Eclesiástica Pan-Amazônica (REPAM), que não diferencia entre casos de indígenas e não indígenas em suas cifras.

Fruto do guaraná, é uma das que já foram afetadas pelo coronavírus: com um caso de contágio confirmado, vários suspeitos e a morte de um tuxaua, terminologia sateré para designar os líderes anciões de cada comunidade. “O falecimento deixou a toda a aldeia São Benedito, de 90 pessoas, sob rigorosa quarentena”, conta, com tristeza, Sérgio Batista Garcia Wara, membro dessa etnia que habita a Terra Indígena Andará Marau, que ocupa parte dos Estados do Amazonas e Pará.

Sabão, e para se alimentar muita gente está recorrendo à pesca e à caça, embora estes recursos sejam a cada dia mais escassos”, prossegue Batista. Nas profundezas da selva, a via fluvial é a principal opção de transporte, em muitos casos a única, mas as autoridades locais proibiram a navegação para evitar a propagação do vírus. Não obstante, estas restrições também dificultam o abastecimento de alimentos essenciais, entre eles certos medicamentos urgentes.

Produtores Sateré-Mawé, não pôde se deslocar à aldeia indígena e observa a quarentena com seus filhos na cidade, onde já foram confirmados 37 casos positivos de coronavírus e cinco mortos. O Consórcio vende guaraná nativo a redes de comércio justo da França e Itália, dois países duramente atingidos pelos efeitos da covid-19, e é formado por 336 famílias indígenas associadas, que se inquietam pelo futuro de sua única fonte de renda.

Têm nenhum contato com outra população exterior, segundo a ONG Survival. “As populações em isolamento voluntário são extremamente suscetíveis a este tipo de doenças virais, porque não têm imunidade nem para esta nem para nenhuma das enfermidades respiratórias que circulam no resto do mundo”, explica o médico Douglas Rodrigues, especializado em saúde indígena. O maior risco do coronavírus em relação a outros vírus que também são desconhecidos para estes povos é o potencial de disseminação que ele apresenta. “No caso do coronavírus, estamos reagindo como indígenas isolados, já que não temos nenhuma memória imunológica na população e por isso se produziu esta pandemia”, ressalta este profissional da saúde que trabalha com comunidades amazônicas e faz pesquisas para a Universidade Federal de São Paulo.

Distância e permitir que continuem isolados. Porém, e embora esta recomendação pareça evidente, a nomeação do antropólogo e missionário católico Ricardo Lopes Dias para ocupar o cargo de gestor da Coordenação Geral de Povos Indígenas Isolados e Recém Contatados da Fundação Nacional do Índio (Funai) ativou os alarmes de organizações indigenistas como a Survival Internacional. Lopes participou durante 10 anos da entidade católica norte-americana Missão Novas Tribos, atualmente rebatizada como Ethnos360, e atuou no vale do Javari, uma das maiores reserva indígenas do Brasil, onde se encontra a maior concentração de povos originários isolados.

Comunidades indígenas, tem um especial interesse em chegar aos povos isolados. Em 1987, os missionários estabeleceram contato com a etnia isolada dos zo’é; poucos anos depois, um terço da população havia morrido de doenças como gripe ou malária, e em 1991 a Funai determinou a expulsão dos missionários da área indígena. Embora o Ministério Público tenha aberto uma investigação sobre a morte desses indígenas, o processo acabou arquivado sem demonstrar a responsabilidade direta dos missionários.

Presença de missionários tentando contatar povos isolados, captar indígenas e “abrir as portas da Terra Indígena para ações nefastas de proselitismo religioso”. A ação recebeu na sexta-feira, 17 de abril, uma sentença favorável por parte da Justiça brasileira, que proibiu o contato de missionários com etnias isoladas no Vale do Javari.


FONTE: Brasil Elpais

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